Sete desafios para futuros líderes

Em qualquer atividade envolvendo mais de uma pessoa, se eficiência é desejada, é necessário trabalho em equipe e liderança. Seja na escola, no time de futebol, na família, nas organizações, em qualquer grupo, liderança é essencial. Quando se trata das decisões que dão destino a um país, isso passa a ser ainda mais crítico. Líderes são constantemente confrontados com as mais diversas situações e propostas nas atividades pessoais e profissionais e, embora alguns se esqueçam, o comportamento do líder na vida pessoal é parte influente na sua vida profissional, pois seu “time” assumirá sua atitude como “exemplo” para nortear o comportamento do grupo.

Mahatma Gandhi certa vez falou a respeito de sete combinações que podem destruir a sociedade. Apresento a seguir essas sete combinações e alguns comentários sobre cada uma. Observem que, sendo a natureza humana a mesma, esses perigos continuam a fazer estragos na sociedade, nas famílias e na vida pessoal de muita gente. Basta ligar a televisão, ou olhar para o lado, ou, para alguns, olhar para a própria consciência, para vê-los em operação:

1. Prazer sem Consciência

Essa combinação nasce da imaturidade e do egoísmo. A constante oferta de “prazeres” e a falta de valores enraizados que coloquem limites nas possibilidades constantemente iniciam o processo. “Eu mereço!” Essa frase parece surgir rapidamente no processo. A questão não é esquecer o prazer. Na verdade, o prazer faz parte (e importante) da vida. Ele motiva muitas de nossas ações. Contudo, os problemas começam quando usamos nossas “facilidades” para simplesmente satisfazer os desejos da criança que vive dentro de nós sem pensar nas consequências para o futuro e para as pessoas que serão, direta ou indiretamente, afetadas pelas nossas ações. A sociedade, com todas as distorções atuais, até pode “perdoar” o indivíduo; a vida, em última instância, não. Líderes podem e devem identificar tendências como essa entre seus membros de equipe e orientá-los sobre valores morais assim como para o correto equilíbrio entre prazer e trabalho. A performance da equipe depende muito desse equilíbrio.

2. Conhecimento sem caráter

Ignorância é perigoso. Conhecimento sem caráter é ainda pior. O desenvolvimento intelectual tem de ser acompanhado do desenvolvimento pessoal. O conceito de inteligência emocional entra diretamente nessa discussão. Caráter é parte desse desenvolvimento, e não vem da escola, vem de casa. Os exemplos das novelas, filmes e mesmo os noticiários da vida real na TV (infelizmente), mostram completamente o contrário: pessoas usando o conhecimento e habilidades para prejudicar “muitas” outras. Em termos da definição formal de competência, no sentido moral, falta a atitude correta. Dentro de uma equipe, se conhecimento e habilidade de determinados membros são orientados para “o mal” a equipe será rapidamente destruída.

3. Riqueza sem trabalho

O ser humano tem uma tendência natural de buscar mais recursos com menor energia. Bem aplicada, essa característica pode auxiliar a busca por maior eficiência. Contudo, quando não está alicerçada por valores e princípios, essa característica leva a ações ilegais e prejudiciais aos outros membros da equipe ou da sociedade. Toda riqueza deve ser merecida pelo trabalho. O que é conquistado sem base de valor, passa a constituir uma aberração no sistema. Especulações financeiras são um bom exemplo disso. O colapso desses sistemas geralmente causam inúmeros problemas que se espalham como o efeito de uma onda em um lago. Em uma equipe, ou mesmo a nível pessoal, a ideia se espalha como um vírus que corrompe o sentido de equipe ou destrói a motivação pela construção do sucesso através do trabalho. O problema é que o ÚNICO caminho para o sucesso real é através do trabalho. O resto, é estrada abaixo na ribanceira da vida.

4. Negócios sem moral

Na mesma “frequência” do que foi falado acima está a realização de negócios sem moral, sem princípios, sem valores. A ideia nesse tipo de combinação é: “tudo para mim, nada para você!”. É o tipo do “paraíso dos espertos”. Enganar as pessoas, ganhar sem honra, falsificar, mentir, fingir, passam a ser “parte do jogo”. “O importante é levar vantagem em tudo. Certo?”. ERRADO! Muito Errado. O caminho mais rápido para a falência de qualquer empresa é “vender sem qualidade”. Da mesma forma, o caminho mais rápido para o fracasso de qualquer pessoa na vida é “ser esperto”. O seu valor como pessoa é medido pelo seu caráter e como isso reflete nas suas ações. Ser uma pessoa de palavra e confiável em qualquer situação é o que o transforma em uma pessoa respeitada em qualquer área, incluindo a profissional, é claro. É muito mais produtivo fazer a coisa certa, mesmo que pareça “um mal negócio” a princípio, do que justificar para si e para outros os erros cometidos “por querer”.

5. Ciência sem humanidade

Guerra é o atestado da ignorância humana. A ciência é uma ferramenta poderosa. Usada para o bem, pode transformar e salvar vidas. Usada de outra forma, torna-se nosso próprio carrasco, hoje ou no futuro.

6. Religião sem sacrifício

É preciso algum sacrifício para se colocar e entender as questões da vida do próximo. A “oração distante”, sem a participação ativa na solução da causa, é algo vazio.

7. Política sem princípios

Não é exclusividade do Brasil. O poder usado para saquear o povo é um fato antigo. A verdadeira imagem de uma pessoa não é feita pelas roupas alinhadas ou discursos preparados, mas sim pelos valores que dão sustentação ao seu caráter. Difícil de julgar, muitas vezes dissimulado com dezenas de técnicas de projeção de imagem. Mas, no final das contas, um dia sempre é revelado. Nós, como sociedade, sofremos as consequências de nossas escolhas no voto. Não somos vítimas da corrupção, somos cúmplices. Podemos mudar a situação? É claro que sim. A Educação forte, desde os tenros anos, incluindo desenvolvimento de valores, cidadania e empreendedorismo tem um grande potencial para ajudar na solução parcial desse problema. Digo parcial, pois a raiz do problema está na natureza humana, e sempre haverá lugar para o nascimento de comportamentos incorretos. A lei aplicada com rapidez e severidade, igual para todos, independentemente de sexo, religião, raça, ou qualquer outra coisa usada normalmente para “classificar e dividir” pessoas, também desempenha papel importante no processo. Ao vermos essas combinações citadas por Gandhi, observamos o quanto continuam atuais. Para crescer e REALMENTE desenvolver-se, o Brasil precisa de líderes e exemplos positivos. Todos nós podemos fazer a nossa parte. Todos nós, juntos, somos esse país. Você quer participar? Comece por avaliar suas próprias ações e atitudes. Faça o melhor, faça mais, faça o certo, seja um líder, dê o exemplo e mude o mundo ao seu redor.

Marcos Pontes

Marcos Pontes

Marcos Pontes é engenheiro aeronáutico (Instituto Tecnológico de Aeronáutica - 1993) e mestre em Engenharia de Sistemas (US Naval Postgraduate School - 1998). Selecionado pela NASA/AEB em 1998 (turma 17 de astronautas NASA), o astronauta Marcos Pontes possui 25 anos de experiência na Força Aérea, trabalhando como piloto de caça, piloto de testes, especialista em segurança de voo e engenheiro em importantes projetos de tecnologia e operações militares. Foi transferido para a reserva militar em 2006 no posto de tenente coronel e continua até os dias de hoje trabalhando como astronauta (carreira civil) para o desenvolvimento do Programa Espacial Brasileiro. É o primeiro astronauta brasileiro, primeiro astronauta profissional de nacionalidade única de um país do Hemisfério Sul e primeiro astronauta lusófono. Pontes foi o segundo de sua turma de astronautas da NASA (32 membros) a realizar um voo espacial. Em 2006, realizou sua primeira missão espacial para a Estação Espacial Internacional a bordo da espaçonave russa Soyuz TMA-8, juntamente com o cosmonauta Pavel Vinogradov e o astronauta Jeffrey Williams. Atualmente, além de eu trabalho junto ao Programa Espacial e enquanto aguarda escalação para seu segundo voo espacial, Pontes atua como CEO da MP Engenharia, uma empresa de P&D, como palestrante profissional, como coach especialista em desempenho pessoal e profissional, como pesquisador convidado do Instituto de Estudos Avançados da USP-SC e como diretor técnico espacial do Instituto Nacional Para o Desenvolvimento Espacial e Aeronáutico. É o embaixador mundial da Worldskills International para o Ensino Profissionalizante, embaixador no Brasil da First (For Inspiration and Recognition of Science and Technology), embaixador da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (Unido) e presidente da Fundação Astronauta Marcos Pontes, uma organização sem fins lucrativos para a promoção da educação, da ciência e da tecnologia como ferramentas para o desenvolvimento sustentável no planeta. Marcos Pontes tem 3 livros publicados e recebeu um grande número de medalhas e condecorações pelo seu trabalho pela educação, ciência, tecnologia e desenvolvimento social no Brasil e em outros países, incluindo a denominação de um asteroide com seu nome, o Asteroide 38245 Marcos Pontes.

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