O segundo brasileiro no espaço

Acompanho as notícias sobre atividades espaciais no Brasil há muito tempo, desde os anos 70, e, de tempos em tempos, surge algum novo boato sobre algum “iminente astronauta” brasileiro. A imprensa divulga amplamente, empresas promovem, instituições acreditam, o povo acredita, o sujeito dá entrevistas como se já estivesse em treinamento final para um voo espacial e… nada acontece.

Lembro de um piloto de caça da FAB que na década de 1980 saiu na imprensa como o “escolhido primeiro astronauta brasileiro”. Eu fiquei animado com a possibilidade que se abriria para futuros candidatos, mas nada aconteceu!

Depois vieram reportagens sobre uma médica gaúcha que estaria em treinamento de astronauta na NASA. Foi apenas boato. Na verdade, ela tinha um projeto acadêmico que envolvia medicina espacial, mas não tinha nada a ver com uma seleção para astronauta. Uma pena.

Aí, algo realmente diferente aconteceu. O Brasil entrou oficialmente no Programa da Estação Espacial Internacional (ISS) através da NASA. Foi quando tivemos a seleção da NASA/AEB em 1998. Imediatamente me inscrevi e fui selecionado para a turma 17 de astronautas da NASA para o programa da ISS. Aquele, até hoje, foi o único evento real e sério relacionado à seleção de um astronauta brasileiro.

Realizei o curso completo de astronauta profissional especialista de missão, fui graduado entre os primeiros da turma, executei a primeira missão espacial em 2006 e permaneço até hoje à disposição do Brasil para outras missões espaciais como o único astronauta profissional a serviço de um país do Hemisfério Sul do Planeta.

Depois da missão de 2006, ficamos por um tempo sem as propagandas enganosas sobre “iminentes astronautas” brasileiros. Porém, nos últimos anos, temos visto uma chuva de desinformação e “novos astronautas” surgindo a toda hora na nossa imprensa.

Para colocar ordem na casa e informar os fatos reais para que o público não seja enganado por notícias sem sentido técnico, apenas campanha de marketing, resolvi escrever este artigo.

A primeira coisa que deve ficar clara é a diferença entre astronauta profissional e turista espacial.

Recentemente, temos tido um natural aumento do interesse comercial de empresas sobre o mercado de transporte de turistas ao espaço. Até o momento, tivemos alguns milionários que pagaram grandes quantias (entre 20 e 30 milhões de dólares) e visitaram a Estação Espacial Internacional (ISS) como turistas. O procedimento, do ponto de vista operacional, é complicado na ISS, pois a espaçonave não é preparada para receber turistas e a presença de um deles, pelo risco que representa à operação, tira a atenção e reduz a nossa performance como tripulação, já que temos que perder tempo “cuidando” do passageiro.

Com o desenvolvimento de projetos de voos suborbitais por empresas como a Virgin Galactic e a Xcor, teremos mais turistas visitando o espaço, agora em voos de curtíssima duração. Isto é, esses voos devem proporcionar de 5 a 7 minutos acima da linha de Kármán, que define oficialmente a “fronteira do espaço” acima de 100 km de altitude. O custo desses voos é relativamente menor (por volta de 250 mil dólares) e deve atrair um número considerável de clientes.

Atento a essa oportunidade, em 2012 criei uma empresa de turismo de aventuras (www.agenciamarcospontes.com.br) que, entre outros pacotes radicais, vende voos turísticos espaciais. Aliás, recentemente fomos a quinta agência do planeta em número de tickets espaciais vendidos. Portanto, além da possibilidade profissional de trabalhar como astronauta profissional nas novas empresas espaciais e projetos em desenvolvimento, tenho pleno interesse comercial em divulgar e promover esses projetos.

Porém, é importante manter o “pé no chão” quando se trata da segurança de tais voos, do tempo realista estimado para o início dos voos com turistas e a definição clara do que é um turista espacial e o que é um astronauta. Precisamos ter ética na divulgação!

Colocado de uma maneira clara, o teste (questão) que diferencia um turista espacial de um astronauta é: “você é capaz de operar sozinho ou comandar a espaçonave com segurança em todas as fases do voo (da decolagem ao pouso), realizando manutenção, sem assistência, dos seus sistemas em voo se necessário?” Se a resposta for não, é turista espacial. Se a resposta for sim, é astronauta.

Basicamente, é a diferença entre o comandante/piloto de uma aeronave comercial que opera a aeronave na ponte aérea de São Paulo ao Rio (por exemplo) e os passageiros do voo. O piloto está para astronauta, enquanto os passageiros estão para turistas espaciais.

Agora que sabemos diferenciar entre astronauta e turista espacial, o próximo passo é definir o critério para saber se alguém realmente chegou ou não ao espaço (como turista ou astronauta). Isso é simples: para oficialmente estar no espaço, é necessário estar acima da linha de Kármán, definida a 100 km de altitude.

Já com alguma base técnica de conhecimento, podemos entrar no tema e apresentar verdadeiras possibilidades de quem será nosso segundo astronauta profissional brasileiro e quem será nosso primeiro turista espacial brasileiro.

Infelizmente, o segundo astronauta brasileiro está ainda longe de acontecer.

O programa espacial brasileiro não tem nenhum profissional em treinamento oficial de astronauta (NASA, por exemplo) no momento para se tornar o segundo astronauta brasileiro. Eu já tenho todo o treinamento necessário e continuo à disposição do país para realizar algum voo espacial que o Brasil precise. Contudo eu gostaria de ter um backup brasileiro e até cheguei a escrever, na década de 2000, um processo de seleção e treinamento no qual eu ajudaria a conduzir para a escolha e preparação do nosso segundo astronauta. Porém, o processo nunca foi colocado em prática e, convenhamos, com a situação atual dos projetos do programa espacial, a desejável preparação de um segundo astronauta seria algo sem prioridade lógica para investimento. Embora seja algo que eu gostaria muito, temos tantos problemas em aberto e tantos pontos essenciais que precisam ser trabalhados urgentemente no programa espacial que mesmo eu sou obrigado a concordar que os custos da preparação de um segundo astronauta neste momento não teriam como serem justificados pelo presidente da AEB às contas da união. Primeiro, precisamos colocar a casa em ordem nos assuntos básicos, antes de chegarmos novamente ao patamar de pensar em voo tripulado, infelizmente.

Já os primeiros turistas espaciais brasileiros, esses são uma possibilidade real e próxima!

Podemos estimar inclusive alguns nomes, datas e espaçonaves.

Isso me deixa muito feliz, já que significa não apenas o nascimento de um excelente mercado comercial, mas um maior interesse para o setor, o que, em última instância, pode refletir positivamente em todas as atividades espaciais do país.

Atualmente, temos dois projetos reais de espaçonaves em desenvolvimento com potencial para levar nossos primeiros turistas espaciais brasileiros: O SpaceShip2 da Virgin Galactic (www.virgingalactic.com) e o Lynx da Xcor (www.xcor.com/lynx).

O SpaceShip2 é, de longe, o projeto mais adiantado. Apesar do primeiro protótipo ter sido perdido em um acidente no ano passado, o segundo protótipo está praticamente completo e já incorporando as tecnologias necessárias para atingir o espaço. Parte significativa dessa tecnologia foi desenvolvida e testada no SpaceShip1 que, em 2004, realizou 3 voos ao espaço, ganhando a competição Xprize com um prêmio 20 milhões de dólares patrocinado pela minha amiga Anousheh Ansari, que foi a primeira turista espacial mulher do planeta. Estima-se que o segundo protótipo do SpaceShip2, realize em 2016 a campanha de ensaios em voo para a certificação do FAA (Federal Aviation Administration), necessária para poder operar com turistas, estando pronto para operação comercial em 2017, caso tudo siga a contento. Eu conheço pessoalmente alguns dos pilotos de testes do SpaceShip2, incluindo o meu companheiro astronauta Rick “CJ” Sturckow, e eles estão bastante animados com o projeto e confiantes  com a realidade da data estimada para o início das operações em 2017.

Portanto, turistas espaciais brasileiros que estão aguardando o voo no SpaceShip2 já voarão a partir de 2017.

No caso do Lynx da Xcor, o tempo de espera será muito maior. O projeto ainda está em estágio inicial e, antes de chegar ao espaço (acima de 100 km de altitude) deverá passar por um protótipo demonstrador de conceito (Mark I) que atingirá apenas 62 km (estratosfera). Também conheço o piloto de testes do Lynx, astronauta Rick Searfoss, e ainda não há data firme para iniciar os testes em voo em altitude máxima do primeiro protótipo (Mark I). Portanto, estimamos que o início dos testes para operação do segundo protótipo (Mark II), que efetivamente deve chegar ao espaço, não deve acontecer antes de 2018/2019. Os voos comerciais com turistas não devem, portanto, acontecer antes de 2019/2020.

Interessante notar que, apesar de nem existir um protótipo de teste do Lynx com capacidade de atingir o espaço, já tivemos várias campanhas de marketing anunciando um “iminente” voo da espaçonave com turistas ganhadores de concursos promocionais, inclusive brasileiros. A imprensa divulgou amplamente e muita gente acreditou!

Pela ordem, vamos citar alguns casos.

Por volta de 2004, tivemos uma campanha da VW (Volkswagen), onde uma brasileira, administradora de empresas, Ângela Takesawa (www1.folha.uol.com.br/folha/ciencia/ult306u12162.shtml) foi sorteada para um voo suborbital em espaçonave não definida que, conforme divulgaram na época, deveria acontecer antes de 2006! Segundo a VW, a campanha gerou um aumento de fluxo de clientes nas revendas da marca da ordem de 25% e um acréscimo de vendas – incluindo carros, serviços, peças etc – de 20%, em um período no qual o mercado brasileiro cresceu 8%.

Depois do meu voo em 2006, houve um período quieto, sem promessas milagrosas.

Em 2013, veio a campanha da AXE, onde outro brasileiro, também administrador de empresas, Marco Aurélio Gorrasi, foi o ganhador de um voo no Lynx, depois de ter conseguido vencer na fase de divulgação nas redes sociais e passar por uma bateria de “treinamento” semelhante aos testes de “reality shows” para, finalmente, estar “pronto” para voo que aconteceria no início de 2014 (www.space.com/23866-axe-apollo-space-academy-spaceflight-winners.html). A campanha publicitária foi um sucesso, mas o voo nunca aconteceu.

Na mesma toada de marketing, também em 2013 tivemos uma campanha publicitária da empresa aérea KLM que também prometeu um voo espacial de Lynx, a ser realizado no início de 2014, à pessoa que conseguisse “chutar” o ponto mais aproximado do pouso de um balão estratosférico. Pedro Nehme, um estudante de engenharia elétrica brasileiro, coincidentemente estagiário da AEB, foi o ganhador da gincana promocional. Recente e estranhamente, a imprensa brasileira, até com algum apoio oficial, tem apresentado o jovem como que ele fosse ao espaço nos próximos meses a bordo do Lynx, considerando-o como o primeiro turista espacial brasileiro.

Impressionante essas campanhas publicitárias, não é?

Para encerrar o artigo, vamos apresentar, portanto, uma tabela da sequência mais provável de voo dos nossos primeiros turistas espaciais, considerando de forma otimista que as empresas que fizeram as campanhas vão honrar suas promessas e que possamos encaixar dois brasileiros por ano em média na enorme fila de espera para voo em cada espaçonave em operação:

 

Turista Espacial # Nome / Cliente Ano Espaçonave
01 Sr. Marcos Palhares – Cliente Virgin Galactic 2017 SpaceShip2
02 Cliente Brasileiro Virgin Galactic 2017 SpaceShip2
03 Cliente Brasileiro Virgin Galactic 2018 SpaceShip2
04 Cliente Brasileiro Virgin Galactic 2018 SpaceShip2
05 Cliente Brasileiro Virgin Galactic 2019 SpaceShip2
06 Sra. Ângela Takesawa – Sorteio da Volkswagen Indefinido Indefinida
07 Cliente Brasileiro Virgin Galactic 2019 SpaceShip2
08 Sr. Marco Aurélio Gorrasi – Gincana da AXE 2019 Lynx
09 Cliente Brasileiro Xcor 2019 Lynx
10 Cliente Brasileiro Virgin Galactic 2020 SpaceShip2
11 Cliente Brasileiro Virgin Galactic 2020 SpaceShip2
12 Sr. Pedro Nehme – Gincana da KLM 2020 Lynx
13 Cliente Brasileiro Xcor 2020 Lynx

 

Parece demorado, mas em se tratando de projetos espaciais tripulados e toda a legislação e critérios técnicos a serem obedecidos para voos tripulados, ainda mais com turistas comerciais, que não são “legalmente descartáveis” como astronautas/pilotos de teste, este cronograma já está muito apertado (otimista).

Vamos assistir e ver o que acontece. Eu estou na torcida para tudo funcionar direito, sem acidentes, e que possamos desenvolver esse maravilhoso mercado que desponta no horizonte espacial.

Marcos Pontes

Marcos Pontes

Marcos Pontes é engenheiro aeronáutico (Instituto Tecnológico de Aeronáutica - 1993) e mestre em Engenharia de Sistemas (US Naval Postgraduate School - 1998). Selecionado pela NASA/AEB em 1998 (turma 17 de astronautas NASA), o astronauta Marcos Pontes possui 25 anos de experiência na Força Aérea, trabalhando como piloto de caça, piloto de testes, especialista em segurança de voo e engenheiro em importantes projetos de tecnologia e operações militares. Foi transferido para a reserva militar em 2006 no posto de tenente coronel e continua até os dias de hoje trabalhando como astronauta (carreira civil) para o desenvolvimento do Programa Espacial Brasileiro. É o primeiro astronauta brasileiro, primeiro astronauta profissional de nacionalidade única de um país do Hemisfério Sul e primeiro astronauta lusófono. Pontes foi o segundo de sua turma de astronautas da NASA (32 membros) a realizar um voo espacial. Em 2006, realizou sua primeira missão espacial para a Estação Espacial Internacional a bordo da espaçonave russa Soyuz TMA-8, juntamente com o cosmonauta Pavel Vinogradov e o astronauta Jeffrey Williams. Atualmente, além de eu trabalho junto ao Programa Espacial e enquanto aguarda escalação para seu segundo voo espacial, Pontes atua como CEO da MP Engenharia, uma empresa de P&D, como palestrante profissional, como coach especialista em desempenho pessoal e profissional, como pesquisador convidado do Instituto de Estudos Avançados da USP-SC e como diretor técnico espacial do Instituto Nacional Para o Desenvolvimento Espacial e Aeronáutico. É o embaixador mundial da Worldskills International para o Ensino Profissionalizante, embaixador no Brasil da First (For Inspiration and Recognition of Science and Technology), embaixador da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (Unido) e presidente da Fundação Astronauta Marcos Pontes, uma organização sem fins lucrativos para a promoção da educação, da ciência e da tecnologia como ferramentas para o desenvolvimento sustentável no planeta. Marcos Pontes tem 3 livros publicados e recebeu um grande número de medalhas e condecorações pelo seu trabalho pela educação, ciência, tecnologia e desenvolvimento social no Brasil e em outros países, incluindo a denominação de um asteroide com seu nome, o Asteroide 38245 Marcos Pontes.