O que você espera do Brasil? O que o Brasil espera de você?

O Brasil é um país maravilhoso e tem um grande futuro pela frente. Não falo isso por “ufanismo”. Eu pude ver do espaço! É muita coisa! Mas, então, porque demoramos tanto para “chegar lá” e nos tornarmos uma das maiores nações desenvolvidas do planeta? Esperamos tanto desse nosso lindo país, não é? Entretanto, a questão mais justa deveria ser: O que o Brasil espera de nós?

Pensando sobre isso, recentemente tomei uma importante decisão na minha vida: colocar-me à disposição dos brasileiros para ajudar o país no Congresso Nacional. Devido à imagem ruim dos nossos políticos, e sabendo que isso significa um sacrifício para mim e minha família, muita gente têm me questionado sobre as razões dessa decisão. Para aqueles que leram o meu livro “Missão Cumprida” da editora Chris McHilliad, as razões já eram bem conhecidas. Contudo, para atender ainda mais pessoas, tomo a liberdade de reproduzir neste artigo alguns trechos do capítulo 114 do livro, publicado em 2011:

“Eu acredito nas futuras gerações; acredito na educação, na eliminação de tudo aquilo que não presta na nossa cultura. Deixar só coisas boas. Não preciso entrar aqui nos detalhes sobre isso. Todos os brasileiros sabem que tipo de pensamento, quais são as atitudes negativas que compõem a raiz do comportamento que impede nosso progresso, com ordem, e em ritmo mais acelerado.

Fazer o que está previsto mesmo que ninguém esteja vigiando, respeitar o direito de outras pessoas, cumprir o dever antes de exigir os direitos, cuidar das pequenas coisas ao nosso alcance em prol da natureza, falar de qualquer pessoa sempre como se ela estivesse presente, dizer obrigado, por favor, dar passagem, prestar atenção no próprio comportamento e tentar fazer sempre melhor e mais do que esperam de nós, dar o devido valor a cada produto ou serviço – Exemplo: alguns pagam R$ 200,00 para ir a um show e acham caro um livro de R$ 50,00 –, incentivar uma política ética e de qualidade, votar com responsabilidade, valorizar os bons políticos, valorizar os professores…

São tantas coisas que podemos fazer! Sim. Nós podemos ter um país cada vez melhor. Só depende de nós, da nossa atitude, do nosso comportamento! Esse país é magnífico, e é nosso! Todo ele: de norte a sul, cada cachoeira, cada praia, cada montanha, cada rio, cada árvore. As escolhas do que fazer com tudo isso são nossas, e elas determinarão o futuro de todos os brasileiros, talvez da humanidade. Temos uma grande responsabilidade. Que tipo de país, que tipo de sociedade, que tipo de cultura deixaremos para as próximas gerações, para os nossos netos?

Quando falo esse tipo de coisa, muita gente logo pensa: “Ajudar, como? Você não sabe como minha vida é difícil! Eu não tenho como fazer nada; sou um produto do meio que fui criado; não tenho condições; não tenho o que é necessário para fazer qualquer coisa, etc.” Será? Você é o que acredita ser. A escolha é só sua; a responsabilidade sobre seus resultados também! Quais são os SEUS sonhos atualmente?

Quanto aos meus, você que me acompanhou durante toda essa história, desde o nascimento do meu sonho, nos tempos no aeroclube de Bauru, até os dias atuais, talvez até já os conheça. O caminho percorrido neste livro foi longo, muita coisa aconteceu. A despeito disso, e de tudo que passei, sei que ainda há muito a ser feito. Eu estaria mentindo se dissesse que não tenho ainda muitas expectativas com relação ao futuro. Sim, tenho muitos sonhos!

Um deles é voltar ao espaço. Hoje, com mais de 50 anos de idade, e ainda sentindo algumas das sequelas do voo, sigo pronto para entrar em treinamento para um segundo voo. Uma vez astronauta, sempre astronauta!

E existem mais chances hoje, para mim e para todos os brasileiros que quiserem seguir por esse caminho, do que havia no tempo que eu deitava no telhado da casinha de madeira da rua Beiruth em Bauru e olhava para as estrelas durante horas. Pode ser que a Agência Espacial Brasileira me escale; pode ser também que eu ajude no projeto e nos testes de algum dos novos veículos, privados e públicos, que estão sendo desenvolvidos no mundo. Pode ser que eu veja a Terra novamente. Quem sabe? O que você diria?

Lembre-se de que o senador e astronauta John Glenn fez seu segundo voo aos 77 anos de idade! OK! Está provado que é possível, mas se puder ser antes, agradeço!

Falando no senador, se você também é das pessoas que torcem para que eu entre na política ou ficou na dúvida se vou me candidatar a algum cargo do executivo ou do legislativo no futuro, minha resposta é: “provavelmente sim”.

No dia em que minha paciência de esperar por soluções dos “políticos usuais” acabar e eu sentir que preciso assumir pessoalmente essa nova “missão” no complexo “campo de batalha” político para contribuir de maneira efetiva para o Brasil, pode ter certeza que o farei. E será com determinação, competência, qualidade e a conduta correta, que sempre esperei daqueles que, pelo voto, ajudei a eleger (e, infelizmente, várias vezes me decepcionei).

Mas saiba de uma coisa: a decisão de me candidatar, ou não, é exclusivamente minha prerrogativa. Sem ser empurrado, manipulado ou induzido pela opinião, seja crítica ou elogio, de ninguém.

Sem dúvida, temos muitas batalhas a travar nessa arena. Isso inclui a luta para termos uma educação de qualidade para todos no Brasil, com alunos motivados e professores prestigiados; a luta para direcionarmos a nossa ciência e tecnologia para atender as necessidades práticas específicas do país para uma melhor qualidade de vida da população (saúde, segurança, inovações, empresas, empregos, etc.); a luta para construirmos um programa espacial mais eficaz, a luta para garantirmos a operacionalidade e a integração das forças armadas, mais equipadas e preparadas, no contexto das atividades de desenvolvimento social do país (defesa, ordem pública, apoio em situações de crise, etc.); e muitas outras frentes importantes para o país.

Problemas é o que não falta. O que falta são soluções práticas, inteligentes, e pessoas qualificadas e dispostas a dedicar, realmente, a vida pelo país.

Quando eu resolver me candidatar, certamente aparecerão os “críticos de plantão”, nossos velhos conhecidos. Aqueles que não têm coragem de fazer nada, apenas acusar e reclamar. A eles, não tenho nada a dizer. Também surgirão aquelas pessoas de boa intenção, mas com atitude ingênua, que querem evitar que “pessoas honestas” entrem para a política. Ora, se isso não acontecer, a situação de ineficiência, corrupção e roubos que tanto nos revolta só tende a piorar. E lembre-se que são os políticos eleitos (incompetentes, corruptos ou honestos) que assinam as leis, os projetos e os orçamentos que afetam todos nós no país.

A pergunta importante é: que tipo de gente queremos como políticos? Incompetentes, corruptos ou honestos? Se a resposta for honestos, precisamos incentivar novos “guerreiros” a levantar essa bandeira e participar da política. Depois, precisamos fazer a nossa parte e votar direito! Eliminar do cenário político aqueles que não prestam e eleger apenas pessoas honestas.

Muitos dizem: “Não importa se é honesto; qualquer um quando entra para a política acaba sendo corrompido pelo poder e pelo dinheiro.”

Eu não concordo com essa generalização. Isso é uma afirmação emocional e, no mínimo, “injusta”. Vejo isso de forma fria e profissional. Se o indivíduo deixa-se corromper pelo poder ou pelo dinheiro é porque estava pré-disposto ou porque não tem uma posição madura, convicta e inflexível em sua mente. No mínimo, está a procura de algo diferente da satisfação pessoal pelo serviço bem feito pelo país.

Se quando eu falo em uma possível candidatura, você pensa isso de mim (“é honesto, mas vai se corromper”), por favor, mude agora a sua imagem a meu respeito. Não me “nivele por baixo”! Como você sabe, depois de ler todo este livro, esse tipo de “pré-julgamento”, sem base em fatos, foi parte das várias injustiças que sofri nesta longa história da Missão Centenário. Certamente você observou, por todos os fatos e eventos narrados aqui, e que compõem a história da minha vida, que sou bastante “teimoso”, inflexível e muito apegado às minhas convicções e valores de “astronauta caipira (com muito orgulho) do interior”. É claro que essa mesma atitude vale para essa questão política também. Quem me conhece sabe, e espero que você já tenha notado, que coisas como fama, poder e dinheiro não são capazes de mudar o que eu sou.

Também me sinto pronto para assumir funções técnicas administrativas na minha área de atuação onde precisem de meu conhecimento profissional. Será que alguém se arriscaria a me convocar? Por enquanto, fora a USP, em mais de 12 anos como astronauta, nunca recebi nenhum convite de nenhuma instituição pública brasileira, seja para trabalho ou ajuda de qualquer tipo em projetos e programas. Talvez apenas signifique que não precisam de mim. E isso seria perfeitamente normal. Talvez isso seja, justamente, pelo fato de eu não ser “flexível”, como citei há pouco, em aceitar qualquer “oferta”, ordem ou situação que não seja de acordo com os meus valores e convicções profissionais. Esse comportamento, geralmente, amedronta alguns administradores.

Esses são alguns dos meus planos. São grandes? Claro que são! Mas tudo começa com o sonho, lembra?

Como já disse, acredito muito nas futuras gerações e quero, acima de tudo, que elas extraiam todas as lições que há para tirar dessa história, de forma que os erros não se repitam; que aprendam com as minhas fraquezas e qualidades; que sejam muito melhores seres humanos que eu e todos os outros que já vivemos a maior parte das nossas vidas.

Por isso me empenhei tanto em escrever este livro: ele precisa ser um registro histórico acurado e acessível ao que aconteceu no Brasil quando sonhamos fazer mais e ter um programa espacial tripulado. Onde falhamos, onde acertamos, onde eu errei, onde fui além do esperado… está tudo aqui.

Os nomes dos personagens não são importantes; os fatos são importantes. Ninguém pode mudar o passado, mas todos nós podemos mudar o futuro. Use o conteúdo deste livro, passe adiante, conte a história para outras pessoas. Lembre-se de que a única coisa que o mal precisa para vencer é o silêncio das pessoas de bem.

Por fim, na perenidade dessas páginas, espero deixar um recado permanente ao futuro, aos jovens:

Nunca se deixem intimidar pelo medo de sofrer; vale a pena tentar, vale a pena sonhar, vale a pena viver!

Não tenham medo de errar! Todos nós já cometemos muitos enganos e erros na vida; todos somos humanos e ninguém é perfeito. Não sejam ingênuos como os arrogantes, nem hipócritas como os críticos.

Não tenham vergonha de sua competência. Acreditem no bem e façam sempre o melhor que vocês puderem.

Usem todos os seus talentos e tenham sucesso! Não se preocupem demais com os invejosos. A melhor resposta a todos eles é continuar em frente e ter ainda mais sucesso. Lembrem-se de que eles sempre veem apenas os seus resultados, após todo o seu sacrifício; nunca estarão lá para ajudar quando vocês sofrerem para vencer os desafios; nunca verão o preço que vocês pagaram para chegar aonde chegaram; nunca estarão perto quando vocês ajudarem outras pessoas. Assim, desde agora, ignorem as opiniões negativas.

Os seus talentos, as bênçãos de Deus, devem ser usadas com sabedoria e orgulho. Usem bem toda a prosperidade e os favores que Ele lhe der. E saibam que, no final de tudo, é somente a Ele que vocês deverão satisfação.

Façam a sua parte para que o Brasil seja cada vez mais feliz, ético, justo, inteligente, produtivo e educado; um país que, pelo exemplo, mereça e seja amado, de verdade, não só pelos brasileiros, mas por todos os tripulantes dessa pequena espaçonave azul chamada Terra.”

Marcos Pontes

Marcos Pontes

Marcos Pontes é engenheiro aeronáutico (Instituto Tecnológico de Aeronáutica - 1993) e mestre em Engenharia de Sistemas (US Naval Postgraduate School - 1998). Selecionado pela NASA/AEB em 1998 (turma 17 de astronautas NASA), o astronauta Marcos Pontes possui 25 anos de experiência na Força Aérea, trabalhando como piloto de caça, piloto de testes, especialista em segurança de voo e engenheiro em importantes projetos de tecnologia e operações militares. Foi transferido para a reserva militar em 2006 no posto de tenente coronel e continua até os dias de hoje trabalhando como astronauta (carreira civil) para o desenvolvimento do Programa Espacial Brasileiro. É o primeiro astronauta brasileiro, primeiro astronauta profissional de nacionalidade única de um país do Hemisfério Sul e primeiro astronauta lusófono. Pontes foi o segundo de sua turma de astronautas da NASA (32 membros) a realizar um voo espacial. Em 2006, realizou sua primeira missão espacial para a Estação Espacial Internacional a bordo da espaçonave russa Soyuz TMA-8, juntamente com o cosmonauta Pavel Vinogradov e o astronauta Jeffrey Williams. Atualmente, além de eu trabalho junto ao Programa Espacial e enquanto aguarda escalação para seu segundo voo espacial, Pontes atua como CEO da MP Engenharia, uma empresa de P&D, como palestrante profissional, como coach especialista em desempenho pessoal e profissional, como pesquisador convidado do Instituto de Estudos Avançados da USP-SC e como diretor técnico espacial do Instituto Nacional Para o Desenvolvimento Espacial e Aeronáutico. É o embaixador mundial da Worldskills International para o Ensino Profissionalizante, embaixador no Brasil da First (For Inspiration and Recognition of Science and Technology), embaixador da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (Unido) e presidente da Fundação Astronauta Marcos Pontes, uma organização sem fins lucrativos para a promoção da educação, da ciência e da tecnologia como ferramentas para o desenvolvimento sustentável no planeta. Marcos Pontes tem 3 livros publicados e recebeu um grande número de medalhas e condecorações pelo seu trabalho pela educação, ciência, tecnologia e desenvolvimento social no Brasil e em outros países, incluindo a denominação de um asteroide com seu nome, o Asteroide 38245 Marcos Pontes.

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