O investimento social privado e as transformações da sociedade

…. Há uma tremenda força de mudança no ar.

Paulo Freire contribuiu como poucos para a reflexão sobre o indivíduo e o desenvolvimento de uma sociedade. É uma dialética tal qual a relação entre teoria e prática, e a relação do indivíduo com a sociedade em que vive. Se utilizarmos este pensamento pedagógico de Paulo Freire podemos entender que o investidor social transforma e é transformado pela sociedade onde vive.

Porém, este processo dialético nem sempre é percebido ou valorizado. Iniciamos o século XXI com o rápido crescimento das ligações e dos fluxos de informações e conhecimentos que afetam todas as esferas da vida humana – economia, política, meio ambiente, cultura, sociedade – e até mesmo as relações interpessoais. Esses processos deram origem a importantes transformações sociais em todo o mundo, fazendo com que velhas dicotomias econômicas e culturais, como “moderno e tradicional”, “altamente desenvolvido e menos desenvolvido”, “Oriente e Ocidente”, “Sul e Norte” perdessem importância. Tornou-se cada vez mais difícil agir localmente sem pensar globalmente (como diz o slogan), enquanto ao nível de um país a análise foi se tornando mais complexa para a compreensão da sociedade e de seus problemas. Com isso a relação entre a sociedade e o investidor social passa a ser mais um elemento que entra num mundo ainda dicotimizado entre quem ajuda e quem é ajudado. Quando na verdade ambos fazem parte de um mesmo processo de mudança social.

Esse entendimento deveria ser o elemento constitutivo das parcerias para as ações sociais. Sabemos que precisamos de ações inovadoras que resultam de novas formas de pensar.

Nesse sentido, o próprio papel do investimento social privado é colocado em debate, destacando seu potencial como força capaz de gerar transformações sociais positivas para os desafios colocados por uma realidade que também é construída socialmente.

Investimento social privado é um conceito criado em meados dos anos 90 para designar uma forma de atuação social da cidadania, que busca se diferenciar das formas mais tradicionais de filantropia enquanto exercício de uma caridade paternalística. O contexto da sua criação levou a criação do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS).

O conceito já apresenta consistência teórica e, principalmente, uma prática rica em ações para o desenvolvimento da sociedade. Isso é resultado do trabalho realizado pelos investidores sociais em trazer para sua filantropia competências novas para lidar com a complexidade do desenvolvimento. Busca de informações sobre situações problema, identificação de parceiros que já atuam nessas situações, conhecimento sobre as melhores práticas existentes, uso de ferramentas para o planejamento estratégico de suas futuras ações, gestão eficiente dos recursos disponíveis, preocupação com o impacto transformador de suas ações são alguns exemplos de ações que passam a ser buscadas pelos investidores sociais. Isto exige novas competências para lidar com a complexidade, a conectividade e a constante mudança dos valores, preferências e demandas da sociedade.

Este conjunto de questões não poderá ser atendido de forma independente pelos investidores sociais. A transformação de uma sociedade é um esforço de muitos. Governos, setor produtivo, sociedade civil, universidades, mídia e os próprios cidadãos que de maneira sinérgica devem encontrar fórmulas de participação e inclusão nos debates e nas soluções propostas para o desenvolvimento. A própria noção de organização em redes sociais e formas abertas de organização e inovação, pedem por modelos mais eficazes de cooperação e colaboração. Exigem formas novas de compartilhamento de conhecimentos, práticas e valores, bem como de cooperação interinstitucional.

Sabemos que o investimento social e seus protagonistas vivem de maneira permanente dilemas que nem sempre parecem solúveis, como:

• Agir com o coração ou com a razão;
• Atender uma necessidade que está na moda ou estar em um foco que exige permanência temporal;
• No caso de empresas, inserir o investimento social nas estratégias mais gerais da empresa ou atender as necessidades e demandas das comunidades onde estão inseridas;
• Investir em ações transformadoras ou compensatórias;
• Agir como substituto ou complemento da ação do governo.

A opção por uma ação transformadora implica na necessidade do investidor se comprometer com uma causa de maneira contínua e permanente até que o impacto esteja presente na sociedade. Esta determinação sobre a causa e direção do investimento deve ter como base estudos e tomada de decisão estratégica. Definir a necessidade de mudança implica em saber o que é a mudança. Para tanto, em cada caso, deve ser pontuado por que se muda, o que se muda, como mudar, estabelecendo os tipos de intervenções que influenciam ou determinam os resultados da mudança. Sem essas definições fica impossível estabelecer o processo de mudança, criar os indicadores de monitoramento e avaliação e, assim, saber se as mudanças trouxeram os impactos esperados. Desta forma, essas definições compõem o que hoje conhecemos como teoria da mudança com todos os blocos de construção necessários para provocar uma transformação na sociedade.

Ter uma teoria da mudança representa ter um roteiro para alcançar a transformação pretendida. Se este roteiro é bom e completo, e pode ser compreendido por outras pessoas, passa a ser um instrumento facilitador de apoio de outros grupos sociais e, assim, permitir uma maior chance de que a mudança ocorra.

Sabemos que muitas vezes os investidores não desenvolvem adequadamente suas teorias para transformar uma realidade. Assim, não levam em conta que: (a) a mudança leva tempo; (b) os sucessos nem sempre são reconhecidos quando ocorrem; e (c) não se estabelece o rigor de relacionar os sucessos dentro de uma cadeia de causa/efeito. E mesmo que tenham sucesso em enfrentar essas dificuldades, muitas vezes pecam por não saberem comunicar exatamente o que buscam realizar. Essa questão se torna mais complexa quando a mudança exige outros parceiros estratégicos e essenciais para o sucesso da transformação desejada.

Assim, o investimento social privado tem um papel que ainda é uma novidade para a sociedade e que nem governos e empresas podem fazê-lo, que é o de agir e pensar o desenvolvimento a partir do desejo e do compromisso da cidadania para com toda a sociedade. O investidor social, diante de uma realidade ou problema social, tem a liberdade de ser um empreendedor que identifica causas, busca soluções permanentes, estimula a criatividade, assume riscos, planeja e executa as suas ações de maneira estratégica, busca monitorar e avaliar resultados e, principalmente, impactos que transformam a realidade e, assim, chegar ao desenvolvimento sustentável.

Marcos Kisil

Marcos Kisil

Consultor estratégico e fundador do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social - IDIS. Anteriormente, atuou como Diretor Regional para a América Latina e Caribe na Fundação W.K. Kellogg, sendo o responsável pelo desenvolvimento programático e estratégico da fundação. Médico formado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, dedicou-se ao campo da administração de saúde, tendo-se doutorado em Administração pela George Washington University, Washington-DC, EUA, como bolsista da Fundação W.K.Kellogg. Foi também consultor da Organização Pan-Americana de Saúde. Atualmente exerce atividades acadêmicas como Professor Titular da Universidade de São Paulo, Faculdade de Saúde Pública, e é membro dos Conselhos da Resource Alliance e da SAVE Brasil – afiliada da Bird Life International. Marcos Kisil é sênior fellow do Synergos e membro do conselho editorial da revista Alliance Magazine. Autor dos livros “Comunidade: Foco de Filantropia” e “Investimento Social Privado e Tendências do Investimento Social na América Latina”.

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