Rebelar ou Obedecer?

No Brasil, alguns acontecimentos que temos vivido atualmente, como a opressão e violência acirrada contra os movimentos sociais e uma parcela da população que luta e se manifesta contra as atrocidades cometidas pelo atual governo, nos remete a questionar o verdadeiro significado de humanidade.

Impossível não destacar o atual cenário nefasto e de exceção que estamos passando com a emergência dos governos de direita. A violência e a repressão aumentam a cada dia. Violência por meio das medidas de retrocesso através das diversas PECs, violência física e moral contra jovens negros e pobres que são assassinados todos os dias, violência contra as mulheres, violência no meio rural contra camponeses e índios, entre outras.

Mas não basta sabermos dos fatos que nos chegam todos os dias, é preciso ter consciência crítica para nos indignar, protestar e lutar. O caminho não é fácil, pois o que se verifica é que uma grande parte da população de submissos, manipulados e alienados, apoia e valida um projeto conservador e violento dos governos e de uma classe dominante.

Lembro-me de um dos grandes clássicos da literatura russa do século XIX, do inesquecível Liev Tolstói. Nada mais atual do que um dos seus livros, “Deus está em vós”, que desapareceu por cem anos e que gerou muita polêmica, tanto para a monarquia como para a igreja ortodoxa russa. O autor questiona o poder dos governos e da igreja, bem como a guerra e a violência.

Tolstói nos mostra que existem diversos métodos de ações que são utilizados pelo governo e pelas classes dirigentes: a intimidação, a corrupção, o hipnotismo do povo (superstição religiosa e patriótica) e o serviço militar. Porém, apesar de todas essas ações tornarem os homens passivos e submissos, a pior de todas é o serviço militar, que embrutece e mata a alma.

É no serviço militar que jovens homens sem raciocínio cometem atrocidades em nome da obediência dos governantes. Tolstói os define como “os que nada estudam, nada aprendem, nada leem, apenas vivem como brutos vestidos com fardas de palhaços e medalhas no peito.”

São esses homens que sustentam o poder dos poderosos por meio da instituição repressora, que foi criada para a manutenção da ordem vigente e de proteção aos interesses individuais. Lamentavelmente, o rebanho de cegos e hipnotizados acredita que estes homens adestrados, de fardas, são necessários para garantir a “pseudo-segurança” contra os inimigos, bandidos, comunistas, vândalos etc.

Assim, uma parte dos homens segue marchando sem refletir e sem se rebelar, passivos e resignados, sem compreender a sua condição de escravos. Escravos esses, fiéis e executores da ordem.

O mais contraditório de tudo isso é que, tanto os homens poderosos como os submissos, propagam as seguintes frases: “Somos todos irmãos”; “Eu tenho Deus no meu coração”; “Sou fiel a Deus e a família”; “Sou um servo de Deus”; “Sou um cristão”…

Quanta hipocrisia! Homens que vivem da aparência, que agem não conforme a sua consciência, mas conforme seus interesses medíocres e individuais. Agem como selvagens e assassinos, mas se dizem cristãos e defensores da paz.

Paulo Freire, na pedagogia da consciência, afirma que todos os homens têm consciência, a diferença é que existem os que têm uma consciência ingênua, os que têm uma consciência crítica.

Acredito que não é fácil o caminho para a construção dessa consciência crítica, principalmente em um mundo capitalista de diversos demônios, como o poder da elite violenta, que utiliza da força militar e da mídia para manutenção, e o poder da religião, que cria um número assustador de rebanhos cegos.

Porém tenho a certeza que somos nós, homens, mulheres e jovens de consciência crítica, que devemos continuar a lutar contra essa situação amoral. É preciso se rebelar contra o poder dos governos e das elites, se rebelar contra a guerra e a violência. É preciso se libertar e resgatar o verdadeiro sentido do que seja uma vida coletiva e humana.

O grande Tolstói nos ilumina quando afirma que existe sim um movimento que é contínuo, do inferior para o superior, da mentira para a verdade, e de que é possível destruir a ordem social calcada na violência há mais de mil anos.

Rebelar sempre, obedecer jamais!

Márcia Moussallem

Márcia Moussallem

46 anos, Socióloga, Mestre e Doutora em Serviço Social, Políticas Sociais e Movimentos Sociais pela PUC/SP. MBA em Gestão para Organizações do Terceiro Setor. Professora da PUC/COGEAE e FGV/PEC.

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