Ordem e Progresso: em que século estamos?

É impressionante o que estamos vivendo nos últimos meses no Brasil. O clamor das ruas, enaltecido e propagado pela grande imprensa brasileira contra o governo da presidenta Dilma, nos levou à catástrofe que estamos presenciando hoje: o governo ilegítimo, conservador e neoliberal de Temer.

Mas, além do ataque a nossa democracia, o “novo” governo ilegítimo respalda o seu programa nas diretrizes da doutrina neoliberal, bem como no ideário positivista.

O positivismo, doutrina criada no século 19, teve como um dos pais o francês Augusto Comte. Ele destacava que as leis sociais são iguais às leis naturais, sendo essas invariáveis e que existem independentemente da vontade humana. Era fundamental a existência de uma “harmonia na sociedade”, sendo: “o amor por princípio, a ordem por base e o progresso por fim”.

Não é nenhuma surpresa que o lema do governo positivista brasileiro tem como bases a Ordem e o Progresso, ou seja, “a ordem aos pobres e aos ricos o progresso”. É explicável, uma vez que o positivismo sempre teve uma forte influência na história do Brasil, em especial no início da República.

É lamentável e triste saber que o nosso passado nos cerca e assusta com a volta forte do ideário da extrema direita conservadora. E ainda fazendo coro temos que engolir todos os dias os ignorantes agressivos, fascistas e a galera que está “de boa”.

Estamos diante de um grande retrocesso social, político, econômico e cultural. Não só nos avanços dos direitos da nossa jovem democracia e das políticas públicas, mas, perante a construção de um outro ideário societário com bases na participação e atuação dos diferentes atores socais.

Porém, acredito que a sociedade não é harmoniosa e passiva. É inegável que a realidade não é feita de uma ordem harmoniosa e que não deve ser alterada como defendem os positivistas, mas de um processo histórico-social de muitas lutas e resistências contínuas.

É preciso resistir com muita articulação e participação dos diversos atores sociais, como movimentos sociais e populares, organizações da sociedade civil, sindicatos, partidos políticos de esquerda, universidades, escolas entre outros.

As lutas travadas pela sociedade civil sempre foram e sempre serão importantes. A história nos diz muito e ainda há de mostrar que a luta na direção de um projeto de emancipação humana só está começando. Nada de ordem e nem progresso, estamos no século 21. Desobediência civil Já!

Márcia Moussallem

Márcia Moussallem

46 anos, Socióloga, Mestre e Doutora em Serviço Social, Políticas Sociais e Movimentos Sociais pela PUC/SP. MBA em Gestão para Organizações do Terceiro Setor. Professora da PUC/COGEAE e FGV/PEC.

One Comment

  1. Adriana
    maio 24, 2016 @ 21:24:00

    O texto mostra bem a realidade a que estamos expostos, um neoliberalismo que volta a nos rondar, parece que esquecemos o que vivemos a poucos anos em nossa história. Até quando iremos aceitar que reproduzam tais desmandos, fazendo com que a elite continue acumulando e a massa alienada aplaudindo. Vivendo de sobras e na sombra rodeadas pelo conservadorismos, pelo preconceito e fascismo.

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