Movimentos sociais: terroristas do século XXI?

O que estamos vivendo atualmente no Brasil é uma espécie de retrocesso democrático e afronta aos direitos humanos e das liberdades fundamentais, garantidas pela nossa Constituição Federal de 1988. O PLC101/2015, apresentado pelos homens do poder, tipifica o crime de terrorismo no Brasil. Os movimentos sociais, sindicatos e organizações da sociedade civil, bem como todas as manifestações políticas, passam a ser enquadradas na lei antiterrorismo.

A punição do “crime de terrorismo” determinado nesse projeto atribui a pena de 12 a 30 anos de reclusão quando “identificada” pelas autoridades a finalidade de provocar “terror social”.

A reação contra esse projeto mirabolante dos “donos do poder” tem provocado rejeições dos diversos movimentos sociais, das ONGs e da Anistia Internacional. No final de 2015, foi lançada uma carta aberta contra a PLC101/2015, repudiando o projeto e chamando a atenção de que estamos diante de uma gravíssima ameaça às conquistas democráticas.

Entretanto, é necessário refletirmos que esse projeto nada mais é do que um mecanismo para frear qualquer ação que vá contra os interesses da classe dominante, fato presenciado durante toda a trajetória da história do Brasil. Os movimentos e as lutas sociais durante décadas sempre foram sufocados e muitas vezes cooptados para que não seguissem com um projeto de transformação societária emancipatório.

Cabe ressaltar nessas lutas o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), um dos movimentos sociais mais massacrados e criminalizados durante diversos períodos pelos detentores do poder e pela grande mídia conservadora. As lutas no campo e a consolidação do MST como movimento nos seus 25 anos de existência trouxeram para a arena pública uma nova forma de luta política no combate e enfrentamento da ordem do capital.

Com profundas raízes nas massas populares, o movimento tem reagido continuamente contra a ofensiva do projeto neoliberal, com vista à construção de um projeto de projeto político-social de acesso à terra e de transformação da sociedade. O MST é um exemplo de resistência e de luta para que todos os movimentos, organizações da sociedade civil, sindicatos, possam juntos combater e enfrentar o projeto do grande capital.

Os desafios são imensos nessa batalha diária, mas as conquistas são possíveis se existir uma unidade e articulação conjunta. Esse pode ser um caminho a ser perseguido na direção da construção de um projeto de emancipação e transformação societária.

Os verdadeiros terroristas mascarados sempre foram o Estado imperialista e a classe hegemônica, que no século XXI somente aumentam a sua ofensiva com meios e mecanismo mais sutis e sofisticados para enganar a grande massa.

O aniquilamento contra qualquer projeto que vá contra aos seus interesses faz parte de suas estratégias. Eles sabem que a força e as alavancas de mudanças sociais vêm dos gigantes dos movimentos e das lutas sociais travadas pela sociedade civil.

Márcia Moussallem

Márcia Moussallem

46 anos, Socióloga, Mestre e Doutora em Serviço Social, Políticas Sociais e Movimentos Sociais pela PUC/SP. MBA em Gestão para Organizações do Terceiro Setor. Professora da PUC/COGEAE e FGV/PEC.

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