Brasil: os que lutam e os que estão “de boa”

Alguns fatos ocorridos nos últimos meses no Brasil têm me deixado em um estado de alegria e tristeza ao mesmo tempo. Fico alegre ao ver que somos um povo que luta, grita e briga por seus direitos. Ao mesmo tempo, tenho a tristeza ao ver que também existe um povo acomodado, individualista e despolitizado.

As últimas pesquisas realizadas pelo Datafolha em São Paulo demonstraram que 71% dos eleitores paulistas não têm preferência por nenhum partido das 35 siglas que existem.

O desinteresse pela política e ausência de uma visão mais politizada sobre as questões sociais têm aumentado principalmente nos grupos dos mais jovens. Porém os jovens das escolas públicas de São Paulo têm demonstrado a sua força política, na busca da construção de outro modelo de educação.

É nessa esfera heterogênea brasileira dos que lutam e dos que estão “de boa” (os despolitizados) que verificamos diversos movimentos e iniciativas que nos deixam extasiados.

Cabe ressaltar, lamentavelmente, comunidades nas redes sociais que têm crescido de forma alarmante, entre elas: “Nem de Humanas e Nem de Exatas – Sou de Boas”; “Tô de Boas”; “Escola Sem Partido”. Tais comunidades destacam em suas páginas a preocupação com a “contaminação Político-Ideológica nas escolas”, como também lemas de “ame os seus amigos e viva”, ou “um dos meios de se chegar à verdade é por meio de um bom sono”.

Bem, não cabe aqui apresentar esses “ignorantes apáticos”, que vivem a sua vida em uma “bolha da ilusão”. Cabe, sim, destacar e enaltecer os estudantes que ocuparam as escolas de São Paulo, o Movimentos dos Trabalhadores Sem Terra (MST), que lutam por justiça, e os diversos movimentos sociais e iniciativas populares que lutam em prol da democracia e defesa dos direitos sociais, políticos econômicos.

No mundo dos que lutam, gostaria de destacar o projeto da organização Agenda Pública, vencedor do prêmio empreendedor social Folha de São Paulo de 2015. O projeto foi idealizado pelo jovem cientista político Sérgio Andrade e conta com uma equipe de profissionais. O foco do seu objetivo é: aprimorar a gestão pública, a governança e incentivar a participação social em municípios impactados por grandes obras. As consequências têm sido extremamente positivas, favorecendo o diálogo entre os atores públicos, privados e a comunidade.

É nesse Brasil, dos que lutam e dos que estão “de boa”, que vamos vivendo: em um mundo marcado pela destruição do homem e da natureza. Respeito à turma da “neutralidade”, que detesta política, que detesta confrontos etc.

Acredito que a vida isolada em “feudos” ou em “condomínios” não passa de uma grande ilusão. Fazemos parte de um mundo muito maior em que todos nós somos responsáveis pela sua construção ou destruição.

Como dizia Paulo Freire, é preciso construir outro mundo. Para isso, “Não basta somente Viver, é preciso Existir”. Existir é lutar, construir, participar, refletir.

Márcia Moussallem

Márcia Moussallem

46 anos, Socióloga, Mestre e Doutora em Serviço Social, Políticas Sociais e Movimentos Sociais pela PUC/SP. MBA em Gestão para Organizações do Terceiro Setor. Professora da PUC/COGEAE e FGV/PEC.

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