A cultura cruel dos Adãos e a resistência das Evas

É necessário refletirmos e analisarmos de forma crítica os diversos acontecimentos contemporâneos, levando em consideração os fatores socioculturais que envolvem, em especial, a questão de gênero.

Infelizmente, hoje vivemos com grande intensidade a proliferação da vida como um mero espetáculo dos acontecimentos do cotidiano. Os efeitos são enaltecidos e as verdadeiras causas dos problemas que nos afligem há séculos, em especial a cultura cruel do “mundo dos adãos” nas sociedades capitalistas, são colocados debaixo do tapete.

Heleieth Saffioti, uma das mais importantes pesquisadoras feministas do país, ressalta que existem diferenças das sociedades capitalistas e socialistas no que se refere aos avanços dos direitos das mulheres. Ela destaca que no capitalismo desenvolvido as mulheres alcançaram um patamar de desenvolvimento e conquistas bem maiores do que em países de capitalismo subdesenvolvido ou periférico. Porém, a estrutura social dos países capitalistas impõe diversas limitações para a emancipação plena das mulheres.

Por outro lado, a autora também chama atenção de que nos países socialistas o grau de liberdade tende a ceder a um clima social à igualdade dos sexos. Fatores como a socialização dos meios de produção, elaboração de uma legislação que não discrimine os sexos tanto na família, trabalho, política, entre outros, são imperativos para a emancipação e elevação da mulher.

Porém não cabe aqui uma análise minuciosa acerca da estrutura nociva do capitalismo e nem mesmo algumas limitações do socialismo no que tange a libertação plena da mulher, mas pontuar que apesar de muitos avanços e conquistas em nível nacional e internacional, os problemas de cunho sociocultural ainda perduram de maneira decisiva com alto grau de preconceito e violência.

Nesse sentido, compreender a condição feminina é analisar criticamente os fatores socioculturais, presentes nos processos históricos das diferentes sociedades. Levar em consideração as especificidades da formação, o desenvolvimento social e econômico das sociedades, e no caso singular do Brasil, nos dar uma visão mais totalizante da condição das mulheres no decorrer dos séculos.
Cabe salientar que os últimos acontecimentos, que não são novos, dos estupros coletivos, da violência doméstica, das agressões diversas contra as mulheres, divulgados pela grande mídia como uma cena de um filme de Hollywood, causaram repulsa por parte dos movimentos progressistas e por outro lado mostrou por meio das redes sociais, o machismo e preconceito por parte tanto de homens como de mulheres.

Contudo não é de se espantar que no “mundo dos Adãos” as Evas são e sempre serão culpadas e condenadas por todos os acontecimentos. Afinal, o pecado original começou quando Eva desobedeceu ao grande criador masculino, provocando um tumulto no paraíso calmo e tranquilo.

Não vou me atentar a essas asneiras de cunho religioso, mas destacar que é de fundamental importância entendermos que existem inúmeras raízes extremamente fortes que impedem a libertação integral das mulheres. Simone de Beauvoir, no seu livro “O Segundo Sexo”, analisou brilhantemente aspectos mitificadores criados pelos homens para relegar às mulheres uma posição e papel inferiores na sociedade. A autora percorre fatores relacionados ao ponto de vista da biologia, da religião, da psicanálise, do materialismo histórico, dos mitos, da situação, das justificações e, por fim, do aspecto do caminho da libertação.

Porém não posso deixar de pontuar que somos todos vítimas, mulheres e homens. Fazemos parte de um sistema de forte ideologia dominante que desumaniza e nos rouba a alma, dando lugar ao individualismo, competição, poder, ganância, desigualdade, exclusão e violência.

Mas por outro lado, não poderia deixar de destacar que as maiores vítimas desse sistema cruel são as inúmeras Evas, em especial as mais jovens, pobres e negras. No Brasil, segundo dados do Mapa da Violência de 2015, o número de violência contra as mulheres aumentou mais de 50%. Isso nos aponta que mesmo com todos os avanços das políticas e leis específicas de proteção à mulher, os números são alarmantes. Não somente isso, mas a preocupação é ainda maior quando verificamos as pautas conservadoras que estão sendo desenvolvidas pelos “Adãos machos do congresso nacional”, além, é claro, das ações do atual governo interino de Michel Temer, de desmanche das políticas específicas para a mulher e a extinção de ministérios importantes, como o Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos.

Apesar das conquistas inegáveis da mulher durante o século XX e o início do século XXI, o caminho da libertação integral das Evas ainda é longo e cheio de desafios, principalmente quando nos referimos a países como o Brasil, de longa tradição cultural de subordinação.

Avanços e retrocessos são muitos, mas a história é feita dessa dualidade de contradição contínua. A promessa difundida pelo desenvolvimento do capitalismo moderno e agora contemporâneo de uma felicidade e de gozo pleno para homens e mulheres não passa de um pano escuro que esconde a verdadeira realidade. Realidade esta mitificada e alienante do universo feminino que a impede de ser livre e de existir na sua totalidade.

Evas! O caminho é de luta e muita resistência. O mundo também nos pertence e não somos coadjuvantes e nem “anexos” da vida e dos projetos dos Adãos. Somos também sujeitos da história e carregamos a força, o poder de decidir e de construir um novo mundo. Lutar e resistir é preciso!

Márcia Moussallem

Márcia Moussallem

46 anos, Socióloga, Mestre e Doutora em Serviço Social, Políticas Sociais e Movimentos Sociais pela PUC/SP. MBA em Gestão para Organizações do Terceiro Setor. Professora da PUC/COGEAE e FGV/PEC.

One Comment

  1. Adriana
    jun 21, 2016 @ 20:43:02

    E como não comentar o brilhante texto escrito por Márcia Moussallem, nos traz a reflexão do mundo machista, patriarcal ao qual vivemos expostas todos os dias. Vivemos para preencher as estatísticas mais cruéis. Sofremos múltiplas violências diariamente e por conta da jornada tripla somos ainda crucificadas por outras tantas mulheres que aprenderam através da criação e do estado patriarcal a também externalizarem seus machimo.
    Talvez seja a hora das mulheres refletirem e se encontrarem pertencentes a um grupo extremamente grande e que sofre com as mazelas desta sociedade que a culpabiliza por tudo.
    Adriana Furlaneti.

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