Educar meninos, um desafio do nosso tempo

“Não, não se espante, você não foi direcionado para um texto diferente.

Aliás, pensando bem… SIM! Se espante sim! Para que o espanto faça você parar para refletir sobre uma questão muito importante: Qual é o seu papel em uma sociedade profundamente machista e feminicida? Afinal, de que lado você está?

Como só uma mulher pode falar com propriedade das dificuldades, desafios e perigos de ser mulher na sociedade atual, eu e você ouviremos. Os direitos conquistados com muita luta e dificuldade vêm sendo retirados das mulheres, de modo cruel e, como sempre, covarde. E é preciso que este retrocesso seja imediatamente revertido. Com vocês, Ana Rogers. #?AgoraÉQueSãoElas.” 

Educar meninos, um desafio do nosso tempo

Por Ana Rogers

Há uma semana, vindo com meu filho da escola, encontrei uma conhecida na rua que foi logo perguntando ao menino: “Você deixa sua mãe sair na rua assim?”

O que para mim soou surreal – usava um vestido comum, nada extravagante que pudesse provocar tal comentário e, ainda que usasse outra roupa, o questionamento desta pessoa teria sido descabido, ainda mais vindo de uma mulher! – na verdade nada mais é que uma sombra cotidiana na vida das mulheres no Brasil e no mundo: o machismo que chega em golpes diários, não só por parte de homens, mas também das próprias mulheres.

Meu filho prontamente respondeu que “a mamãe usa o que ela quer”, e não poderia ser diferente: ele não está sendo criado para “mandar em mulher”.

E esta é uma questão que, em tempos de lei que dificulta o acesso de mulheres que sofreram estupro ao aborto e à pílula do dia seguinte, agressões físicas e verbais nas redes sociais e derrubadas de páginas com conteúdo feminista pelos machistas escondidos atrás de seus computadores, está mais latente do que nunca.

Como um país cuja maioria da população é composta de mulheres pode ser tão machista?

Vejamos:

No Brasil, as mulheres são maioria e, atualmente, responsáveis pelo sustento de 37,3% das famílias, segundo o IBGE. Ocupamos cada vez mais espaço no mercado de trabalho, porém ainda ganhamos menos que os homens para exercer a mesma função.

Mulheres tiveram direito ao voto no Brasil 85 anos atrás, a partir de 3 de novembro de 1930. Há menos de um século, sequer podíamos exercer nossa cidadania por meio do voto.

Hoje temos uma mulher na Presidência, mas nossa representação na política ainda é incipiente. Na Câmara Federal, nas últimas eleições, 9,9% dos parlamentares eleitos foram mulheres. A relação é de menos de uma mulher para cada dez deputados homens eleitos. No Senado, foram escolhidas apenas cinco senadoras entre as 27 vagas disponíveis. Elas dividem espaço com outras seis que cumprem mandato até 2019. Com isso, são 11 de um total de 81 senadores, ou apenas 13,6% da Casa. Ou seja, um ambiente nada favorável às pautas ligadas às causas feministas.

No quesito violência contra a mulher, o Brasil é uma vergonha mundial. Segundo dados compilados no Dossiê Violência contra as Mulheres, cinco espancamentos ocorrem a cada 2 minutos, 1 estupro a cada 11 minutos, 1 feminicídio a cada 90 minutos e 179 relatos de agressão por dia. Em 10 anos, foram 43 mil mulheres assassinadas, 41% em casa.

E o que tudo isso tem a ver com ser mãe de menino? Ora, tudo!

Como uma população composta em sua maioria por mulheres pode ser tão desfavorável às mulheres? Temos no Brasil um forte e atuante movimento feminista e muitas conquistas contabilizadas, mas também mecanismos sociais que perpetuam o machismo, e muitas vezes, inconscientemente, com a nossa contribuição.

Trata-se de um caldo de cultura machista que passa de geração para geração, por meio da educação que insiste em segregar meninos e meninas. Lamentavelmente, em pleno século 21, nos deparamos, a todo momento, nas redes sociais e no mundo físico, com comentários chauvinistas não apenas de homens de gerações mais antigas, mas vindos de jovens e adolescentes, também vítimas dessa educação machista.

Criar de forma diferente meninos e meninas é um dos fatores determinantes para este cenário. E é prática comum no Brasil. Desde o berço: cor de rosa para meninas, azul para meninos. Famílias educam as meninas para serem meigas, delicadas, cuidadoras, para se prepararem para a maternidade, valorizarem aspectos domésticos e de beleza. Para os meninos há estímulo para serem agressivos, independentes e ativos.

Meninos têm que sair conquistando, “pegando” as meninas. Meninas que se envolvem com muitos rapazes são consideradas “fáceis”. E se a menina usar roupa curta, então, “está pedindo pra ser estuprada”. Quantas não foram as mulheres que procuraram uma delegacia de polícia, com toda a humilhação por ter sofrido violência, e escutaram de um policial: “Que roupa você estava usando?”

Em nosso país, apesar de avanços, como a Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006) e a criação da Secretaria de Estado da Mulher, ainda nos é negado o direito à dignidade, criando determinadas expectativas em relação ao nosso papel na sociedade. E a nossa criação, o que ensinamos aos nossos filhos e filhas, ajuda a manutenção desse modelo ultrapassado, cruel e covarde.

Se como mães de meninas temos que dar às nossas filhas a liberdade de ser o que elas bem entenderem, como mães de meninos temos também uma grande responsabilidade: ensiná-los a respeitar as mulheres, seja você mesma, a avó, as colegas da escola, a professora ou a empregada doméstica.

E isso é possível não só por meio de diálogo, mas pelo exemplo. Um menino que vê o pai dividindo as tarefas domésticas com a mãe entende o mundo de outra maneira. Provavelmente irá ajudar essa mãe quando crescer ou sua companheira ou companheiro, no futuro, sem se sentir fragilizado por isso, sem achar que “faz um serviço de mulher. Num lar com pai e mãe, a responsabilidade de cuidar, custear, educar deve ser compartilhada pelo casal. E um menino cuja irmã tem os mesmos direitos que ele terá menos dificuldade de compreender que todos devemos ser parceiros nesta vida, não inimigos, não dominadores e dominados, independentemente do gênero.

A frase “tudo parte da educação”, que virou moda em nossa sociedade, ainda que nem sempre como uma reivindicação consciente e com a devida responsabilidade assumida por cada um de nós, merece cada vez mais ser objeto de reflexão. Uma educação humanizada, que fuja aos estereótipos, que se baseie no diálogo, no respeito mútuo e que combata o preconceito será capaz de dar ao nosso país homens melhores e mulheres mais conscientes de seu verdadeiro papel na sociedade: o papel que desejarem ter.

Amar seu filho é educá-lo para ser um ser humano justo. É educá-lo para respeitar seus semelhantes – homens e mulheres.

João Amorim

João Amorim

Professor de Direito Internacional da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Coordenador da Cátedra Sérgio Vieira de Melo, do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), na UNIFESP. Doutor em Direito Internacional pela Faculdade de Direito da USP. Foi Coordenador de Projetos da Comissão Nacional da Verdade (CNV) e Coordenador do Escritório Regional em São Paulo da CNV, advogado do Centro de Referência para Refugiados, convênio entre o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados e a Cáritas Arquidiocesana de São Paulo, membro da Comissão de Direitos Humanos da Seção São Paulo da Ordem dos Advogados do Brasil. É ex-aluno da Academia de Direito Internacional de Haia (Holanda) e graduado pelo Centro Hemisférico de Estudos de Defesa, da National Defense University (Washington/EUA). Autor dos livros Direito das Águas - Regime Jurídico da Água Doce no Direito Internacional e no Direito Brasileiro (2.ª edição, 2015, Editora Atlas) e A ONU e o Meio Ambiente - Direitos Humanos, Mudanças Climáticas e Segurança Internacional no século XXI (2015, Editora Atlas), além de diversos artigos e capítulos de livros.

Comente