Albert Einstein, Sigmund Freud e a teoria que não se comprova

Dizem que o ano, no Brasil, só começa, mesmo, depois do carnaval. Em muitos aspectos, isso lá é verdade. Em outros, na verdade, somos obrigados a concordar com o poeta: o tempo não para.

Em meio ao torpor dos festejos de final de ano – religiosos para uns, profanos para outros, mas sempre com lembrancinhas, festas de firma, comilanças e rapapés generalizados – como é da vida, e de todos os anos, somos surpreendidos pelas notícias de ídolos que se vão. Pessoas que com sua arte, seu trabalho e mesmo sua loucura nos acompanharam por tantos e tão diversos momentos, influenciando, ainda que momentaneamente, a formação do ser que somos hoje, mesmo que, obviamente, jamais tenhamos de fato conversado ou convivido com estas pessoas (a não ser, claro, por sua presença nos livros de nossa estante ou seus discos e os pôsteres na parede de nosso quarto). Lemmy Kilminster, David Bowie e Umberto Eco são alguns exemplos dos ídolos que cumpriram sua tarefa neste mundo na virada de 2015 para 2016 e nos deixam com aquela sensação de que ainda é cedo (e, aqui, a lembrança de mais um poeta).

Mas, outras mortes também foram noticiadas e sentidas. Obviamente, sem a comoção, a cobertura midiática ou as recordações de vida de Lemmy, Eco ou Bowie.

Entre dezembro de 2015 e janeiro de 2016, centenas de pessoas, boa parte delas mulheres e crianças, morreram afogadas nas águas do Mar Mediterrâneo, em capítulos diários da tragédia dos refugiados que buscam diária e desesperadamente chegar à Europa. Tanto, que nem mesmo os corpos das crianças e as notícias destas mortes comoveram a maioria.

Em Genebra, na sede da ONU, em 08 de fevereiro – Opa! Carnaval! –, o professor Paulo Sérgio Pinheiro, presidente da Comissão Independente Internacional de Inquérito para a Síria, ao divulgar mais um relatório relativo à guerra civil naquele país (Out of Sight, Out of Mind: Deaths in Detention in the Syrian Arab Republic), denunciava a constatação de uma política de Estado de extermínio da população civil, levada a cabo pelo governo Assad e a prática de crimes contra a Humanidade.

E assim, em meio a estas e outras notícias – umas mais tristes, outras mais alegres – o ano civil brasileiro começou, para uns e para outros.

E nem bem “começou o ano”, e uma notícia alvissareira correu o mundo: Albert Einstein estava certo!

Cem anos depois da publicação da Teoria da Relatividade Geral, um grupo de cientistas conseguiu comprovar a existência das chamadas ondas gravitacionais, confirmando assim, finalmente, e por completo, a última de suas teorias por demonstrar.

Além dos grandes avanços e das imensas possibilidades que esta descoberta proporciona para a ciência, ela comprova também – mais uma vez – a genialidade de Einstein que, em pleno início de 2016, cem anos após a publicação de sua teoria mais famosa (e mais de 60 anos após a sua morte), ainda se encontra na vanguarda das pesquisas científicas em sua área de conhecimento.

Apesar de todas as suas teorias no campo da física terem sido comprovadas com a mais absoluta precisão, existe uma outra, pouquíssimo conhecida da maioria das pessoas – e para a qual ele militou por mais de quarenta anos – que permanece sem comprovação até os dias de hoje: a “teoria” da paz.

Einstein aderiu aos movimentos pacifistas com o começo da 1.ª Guerra Mundial e, ainda que sua posição sobre o tema viesse a ser relativizada – palavra inevitável! – no final de sua vida, principalmente em função da ascensão do nazismo e da carnificina vivenciada ao longo da 2.ª Guerra Mundial – que o tornou um refugiado, apesar de sua notoriedade e fama internacionais e de sua importância científica, e o levaria, inclusive, a passar a admitir a possibilidade da guerra diante de certos imperativos morais e a se engajar no movimento que levou à criação do projeto de desenvolvimento da bomba atômica (Projeto Manhattan) –, Einstein manteve uma posição intransigente em relação à sua veemente oposição à guerra e à necessidade de sua completa erradicação por mais de 20 anos.

À mais completa oposição à guerra, e a qualquer tipo de recurso à força para a solução de controvérsias internacionais, Einstein aliava um repúdio ao nacionalismo e a certeza de que o fim da guerra somente seria possível, além das necessárias mudanças no comportamento humano, através da criação de um organismo supranacional, que funcionasse como um juiz permanente de todos os conflitos e para a qual os estados aderissem, abrindo mão de suas respectivas soberanias, em prol da solução pacífica das controvérsias.

Esta era a sua visão do “aspecto superficial (isto é, Administrativo) do problema”. Nada muito novo, mesmo para a época, uma vez que um outro conterrâneo de Einstein, Immanuel Kant, já havia proposto algo semelhante, há cerca de 130 anos, com a publicação de seu projeto de paz perpétua, e o presidente estadunidense Woodrow Wilson também já havia proposto esta solução, em seus famosos “14 Pontos” .

A novidade estava no engajamento público e militante de uma das mentes reconhecidamente mais brilhantes do mundo da ciência – já àquela época – contra as razões e as bases da carnificina da guerra em buscar soluções para a sua completa e definitiva erradicação.

Em sua coluna no jornal O Estado de São Paulo, Adriana Carranca (“A Outra Equação de Einstein”, 13.02.2016) recordou o lado pacifista de Einstein que, desde seu primeiro artigo sobre o tema, publicado logo após o começo da 1.ª Guerra Mundial, em 1915, já elucubrava sobre as origens biológicas da guerra e a impossibilidade de se evitar os conflitos sem que os Estados estivessem engajados em uma organização supranacional.
Ao ler sua coluna, me recordei de um fato pouco conhecido – mas, profundamente significativo e importante –, que a busca de Einstein por compreender as razões que levam os homens à bestialidade da guerra e da violência desmedida, e por desenvolver sua teoria sobre a paz, acabou por produzir.

Em 1931, o Comitê Permanente para a Literatura e as Artes, da Sociedade das Nações, solicitou ao Instituto Internacional para a Cooperação Intelectual, criado em 1926, que estimulasse, entre renomados intelectuais, a troca pública de correspondência em torno de temas de interesse comum ao Instituto e à organização internacional.

Um dos primeiros intelectuais convidados para participar deste debate público de ideias (a correspondência trocada era publicada periodicamente pelo Instituto) foi o próprio Albert Einstein, que indicou como seu correspondente… Sigmund Freud.

Freud aceitou prontamente o convite do Instituto e, em agosto de 1932, tinha início uma comunicação pública entre duas das maiores mentes da História e que, cada um em sua área do conhecimento, contribuíram decisivamente para moldar o século XX como o conhecemos.

Em sua carta a Freud, após explicar o contexto e as razões emocionais e intelectuais que o levaram à escolha do tema e do correspondente, Einstein lança a pergunta: “Existe alguma forma de livrar a Humanidade da ameaça da guerra?”.

No decorrer do texto, instiga Freud a refletir e dar explicação para os “fatores psicológicos” que levam os homens à carnificina e paralisam os esforços para a busca da paz (as cartas foram publicadas originalmente em Why War? Open Letters Between Einstein and Freud – The New Commonwealth, n. 6, January, Moulbray House, London, 1934).

Em sua resposta, Freud analisa as origens dos diversos aspectos psicológicos que, desde a formação da sociedade humana (e como fardo cultural hereditário), levam os homens a fazer uso da força e da violência na solução de suas disputas e na satisfação de suas vontades.

Para ele, a criação de uma instituição supranacional – um tertius, um terceiro, na solução de controvérsias –, como era, à época, a Liga das Nações, só faria sentido e teria eficácia se a dotassem de poder próprio, o que, na prática, somente instituiria uma nova forma de materializar o poder da força (o que, não necessariamente, impediria seu uso contra outros seres humanos). Assim, não seria uma instituição (ou organização internacional) a condição suficiente e bastante para se evitar a guerra ou se manter, de modo definitivo, a paz. A questão estava no próprio ser humano.

Freud sustenta em sua carta que “uma comunidade se mantém unida por duas coisas; a força coercitiva da violência e os vínculos emocionais (identificações é o nome técnico) entre seus membros. Se estiver ausente um dos fatores, é possível que a comunidade se mantenha ainda pelo outro fator”.

E é justamente a esta identificação que Freud se volta para apontar, dentro da tendência instintiva natural do ser humano à violência e à destruição, a possibilidade de erradicação da guerra:

“Tudo o que favorece o estreitamento dos vínculos emocionais entre os homens deve atuar contra a guerra. Esses vínculos podem ser de dois tipos. Em primeiro lugar, podem ser relações semelhantes àquelas relativas a um objeto amado, embora não tenha uma finalidade sexual. A psicanálise não tem motivo porque se envergonhar se nesse ponto fala de amor, pois a própria religião emprega as mesmas palavras: ‘ama a teu próximo como a ti mesmo’. Isto, todavia, é mais facilmente dito do que praticado. O segundo vínculo emocional é o que utiliza a identificação. Tudo o que leva os homens a compartilhar de interesses importantes, produz essa comunhão de sentimento, essas identificações. E a estrutura da sociedade humana se baseia nelas, em grande escala”

Já no final de sua carta, Freud ainda acrescenta um questionamento aos formulados por Einstein: “Por que nos revoltamos tão violentamente contra a guerra?”. E responde:

“Reagíamos à guerra dessa maneira porque toda pessoa tem direito à sua própria vida, porque a guerra põe um término a vidas plenas de esperanças, porque conduz os homens individualmente a situações humilhantes, porque os compele, contra a sua vontade, a matar outros homens e porque destrói objetos materiais preciosos, produzidos pelo trabalho da Humanidade.”.

Tudo isso como reflexo do processo de evolução cultural, ou “civilização”, que, segundo Freud, é o processo ao qual “devemos o melhor daquilo em que nos tornamos, bem como uma boa parte daquilo de que padecemos”.

E este talvez seja o que de mais significativo fica do diálogo público entre estes dois gênios: o inevitável caminho da empatia, da solidariedade, do amor e da compaixão – palavras e, mais importante, sentimentos, tão desdenhados e desprezados nos dias de hoje – como condição necessária para a erradicação da violência, da guerra e das principais mazelas da Humanidade.

Se pensarmos bem, não são a guerra, a fome, a violência, a desigualdade, dentre outros, que constituem problemas sem solução. Não é do interesse de um determinado grupo de pessoas que estes “problemas” acabem e tenham solução.

Daí a importância de que a compaixão e os laços de solidariedade, de empatia e de colaboração entre as pessoas, principalmente em relação à abolição da desigualdade social e econômica, do racismo, da xenofobia, da violência de gênero, do machismo, do fanatismo religioso e de tudo mais que, ao invés de nos unir pelo que temos de mais elementar e comum – o fato de sermos, todos, seres humanos – nos classifica, nos divide e nos coloca sempre em abstratas e inúteis posições antagônicas: líderes X seguidores, fortes X fracos, escolhidos (ou abençoados) X esquecidos (ou amaldiçoados), e assim por diante.

Ao fim e ao cabo, tais situações só servem para, ao desagregar a comunidade humana, (de que falava Freud a Einstein), impedir a identificação, o reconhecimento da identidade entre seus membros.

E, uma vez ausentes as identificações, o único elemento que sobra para manter a comunidade é a força, a violência.

Estamos assistindo à consolidação deste estado violento de coisas e da banalização da violência (e da perda da nossa Humanidade em meio a esta banalização) diariamente. Tanto nas cenas horrendas do genocídio praticado contra o povo Palestino ou contra a população na Síria (ou na República Democrática do Congo), quanto nas periferias das grandes cidades brasileiras, principalmente nos estados de São Paulo e do Rio de Janeiro.

Assistimos impávidos e acuados a violência tomar conta de todos os meandros de nossa vida social, ser amalgamada de tal forma ao nosso cotidiano que passamos a agir como se ela sempre estivesse ali, em todos os lugares, onipresente e imperativa.

Coadunamos (sim! Freud explica!) com a prática da violência extrema contra aqueles que não consideramos iguais a nós (veja só, a que nível de não-identificação chegamos), numa esperança vã e estúpida de que, quando a violência finalmente nos alcançar, sejamos poupados porque “jogamos junto” com o sistema e fomos coniventes com ele.
Temos a desagregação instituída em nossas relações sociais, recheada por uma violência difundida em cada mínima relação de convívio social (nas famílias, na escola, nos templos religiosos, no trânsito, no escritório, no ônibus, na cantina, nas salas de espera dos hospitais e consultórios médicos, nos restaurantes).

Precisamos, como comunidade, assumir nossa responsabilidade individual e coletiva de reverter este estado de coisas. Ainda que, como todo processo terapêutico – principalmente psicoterapêutico – tenhamos que enfrentar nossos medos, fantasmas, traumas, preconceitos, suportar e superar a dor do processo e da mudança. Talvez este seja o caminho, de fato, para conseguirmos nos livrar do espanto da persistência da guerra e das desgraças a ela atreladas.

É esta a teoria de Einstein (na verdade, de Einstein e Freud) que precisamos, de verdade e urgentemente, comprovar.

Em tempo (1): com a ascensão do nazismo, e a eclosão da 2.ª Guerra Mundial, Einstein e Freud se tornaram refugiados. Freud teve seu status de refugiado reconhecido pela Inglaterra e Einstein pelos Estados Unidos da América.

Em tempo (2): Ainda que tenha contribuído decisivamente para convencer o presidente estadunidense Franklin Roosevelt a dar início ao Projeto Manhattan, Einstein manteve-se um pacifista militante até o fim de sua vida, tendo, inclusive, assinado, pouco antes de sua morte, em 1955, o manifesto contra a proliferação de armas de destruição em massa liderado por Bertrand Russel, juntamente com outros laureados com o prêmio Nobel.

João Amorim

João Amorim

Professor de Direito Internacional da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Coordenador da Cátedra Sérgio Vieira de Melo, do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), na UNIFESP. Doutor em Direito Internacional pela Faculdade de Direito da USP. Foi Coordenador de Projetos da Comissão Nacional da Verdade (CNV) e Coordenador do Escritório Regional em São Paulo da CNV, advogado do Centro de Referência para Refugiados, convênio entre o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados e a Cáritas Arquidiocesana de São Paulo, membro da Comissão de Direitos Humanos da Seção São Paulo da Ordem dos Advogados do Brasil. É ex-aluno da Academia de Direito Internacional de Haia (Holanda) e graduado pelo Centro Hemisférico de Estudos de Defesa, da National Defense University (Washington/EUA). Autor dos livros Direito das Águas - Regime Jurídico da Água Doce no Direito Internacional e no Direito Brasileiro (2.ª edição, 2015, Editora Atlas) e A ONU e o Meio Ambiente - Direitos Humanos, Mudanças Climáticas e Segurança Internacional no século XXI (2015, Editora Atlas), além de diversos artigos e capítulos de livros.

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