Para além de sua disciplina: o que você vê?

“Para encontrar soluções, faz-se necessário superar a visão objetivista e simplificadora do mundo”. (Reinventar a Educação. Edgar Morin e Carlos Delgado. Tradução de Irene Reis dos Santos. p.48. Ed. Palas Athena)

Quando os autores usam esta frase, estão tratando sobre a complexidade que é lidar com as questões que tem a ver com o meio ambiente. Mas podemos trazer isso para a educação, ou seja, não podemos tentar achar soluções para a educação sem o diálogo com as outras áreas que possam lhe dar suporte.

Mas o professor tem de resolver tudo? Não, mas se souber mais do que sua disciplina, certamente se sentirá mais capaz para exercer sua profissão e sua atuação diária terá mais impacto em seu meio.

Em algum momento suspeitamos que algo está mal com um aluno. Ele pode apresentar desinteresse, dificuldade para a escrita e leitura, queixas. Podemos ignorar isso, rotular o aluno como preguiçoso, passar o problema para a direção da escola que o passará aos pais. Mas podemos ter uma atitude proativa, e tentar ir eliminando possibilidades. Uma possibilidade que pode ser eliminada é: será mesmo falta de vontade ou algum tipo de impossibilidade? Este é um exercício de empatia porque nos colocamos no lugar do aluno para buscar solucionar o problema. Quando se lida com criança, estabelecer escuta atenta e diálogos com os envolvidos com a criança é fundamental. Ter contato frequente com pediatras não pode ser descartado. Também é de suma importância que o pediatra o alimente de informações que possam ser fornecidas pelos professores e pela escola.

Que professor ouviu alguma vez falar sobre o Teste Snellen? Provavelmente você não tivesse intimidade com o nome, mas se já é motorista ou usa óculos, passou por estas letrinhas. E o que isso tem a ver com a educação?

Para a pediatra, Dra Eliana P. Vellozo, os professores devem estar alertas em relação aos seguintes sinais de distúrbios visuais: a criança pisca mais do que o usual; esfrega os olhos frequentemente; apresenta estrabismo quando olha para objetos distantes; franze o rosto com frequência ou inclina a cabeça para um lado; fecha ou cobre um dos olhos; segura os objetos muito próximos ao rosto; demonstra desconforto sob luz forte; tem as pálpebras avermelhadas; desenvolve, frequentemente, inflamações nas pálpebras; queixa-se de dor nos olhos; apresenta desatenção e dificuldade de leitura e escrita; tem dificuldades para acompanhar os exercícios descritos no quadro-negro? Todos os profissionais da Educação devem receber capacitações para aplicação dos Testes de Snellen e apoio para a triagem visual dos alunos.

Vamos com calma, queridos professores. Não quer dizer que vamos sair por aí receitando óculos, nem nada disso. Mas ter este teste em mãos e saber como administrá-lo, pode nos dar importante suporte antes de falarmos com os pais.

Está claro que vamos contar com os especialistas: pediatras e oftalmologistas, mas podemos aprender, com eles, a usar uma ferramenta mais objetiva que nossa percepção.

Este é um exemplo de como ganhamos todos quando trabalhamos em rede, apoiando-nos uns aos outros com a riqueza da transdisciplinaridade e da troca de conhecimentos. Este é só um exemplo do pensamento complexo de Edgar Morin posto na prática. As partes constituem o todo e nosso TODO é a criança.

Irene Reis dos Santos

Irene Reis dos Santos

Apaixonada pela educação formal e não formal, oriunda do ensino público, professora desde os 16 anos de idade, formada pela USP. Colabora na publicação de livros de ensino de espanhol para brasileiros. Recentemente traduziu a obra ‘Reinventar a educação’, de Edgar Morin e Carlos Delgado. Estuda neurociência e suas contribuições para a educação, faz mestrado em Ciências da Educação. Professora de yoga, atua em ONG da periferia de São Paulo. É conselheira e representante na América Latina do Consejo Independiente de Protección de la Infancia, onde fomenta e coloca em evidência ações sociais inovadoras em prol da infância.

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