Ocupações escolares – crise na educação?

“A ilusão do conhecimento único e certeiro, a política racional e ilustrada, a educação que padroniza, o progresso e o apetite pelo urgente, o controle e as certezas, que ainda predominam, nos conduzem ao abismo. A alternativa ao abismo é a metamorfose, mas esta não chegará sem ações. ”
(Reinventar a Educação. Edgar Morin e Carlos Delgado. Tradução de Irene Reis dos Santos. Ed. Palas Athena)

Temos Ebay, um comércio sem mercadorias ou estoque. Temos Google, um buscador de conteúdos que não estão na prateleira, mas na nuvem. E pode ir aumentando o rol de exemplos de mudanças do mundo atual, da era do conhecimento. Mas ainda temos escolas com carteiras e professores, e grades, e reprovações e provas e alunos.

Temos de ter coragem de assumir o aprendizado em comunidade, tal e como propõe o professor José Pacheco, tal e como o propôs Paulo Freire e tantos outros educadores brasileiros. Assumir que todos podem ensinar e todos podem aprender. Temos de ter professores engajados nisso, que não tenham medo de perder seus empregos porque sabem que seu papel vai muito além de transmitir conteúdos… ou ainda estamos em dúvida sobre nosso papel?

Esta pergunta, aparentemente simples, não pode ser feita sem reflexão. Há que se despir do ego que conferem os títulos acadêmicos e, simplesmente, refletir sobre o fazer, sobre a prática.

“O grande desafio da complexidade, que exige colocar tudo em contexto, cresce na medida em que avançamos, contextualizamos e voltamos a contextualizar. A crise da humanidade, que configura o contexto mais global e abrangente é, ao mesmo tempo, uma abstração que se concretiza em múltiplas crises; é a conjunção de muitas crises que se nutrem umas das outras, dando corpo e realidade à abstração que as generaliza.” (MORIN; DELGADO, 2016, p.4)

Se não temos feito mais que transmitir conteúdos nas escolas, então, realmente, podemos ser substituídos. Quando um professor ousa fazer mais que isso, paga, não raro, com a perda de seu cargo. E este é um dos paradoxos deste mundo atual. Então por onde começar? Coloco a culpa na direita? Na esquerda? Terceirizo tudo de novo? De maneira que, polarizando a coisa em direita e esquerda, mantendo a origem do problema, estamos tentando por aí buscar a solução?

O pensamento complexo exige que pensamos em saídas ainda não pensadas, em saídas pensadas no conjunto da direita com a esquerda. Mas manter o pensamento que originou a crise não pode ser a saída. Tenho conhecido muitas alternativas para a educação. Todas elas baseadas em um pensamento complexo. Muito linear isso de direita e esquerda. E quem está no meio, fica só, nesta aresta aberta pela discórdia. A direita e a esquerda não existem. O que existe é a falta de educação e, por ela, devemos unir o jovem com o velho, o professor com o aluno, o patrão com o empregador. Devemos unir. Adoro o significado da palavra yoga porque ela significa união.

Yoga para todos, já!

Com tudo o que yoga traz: não violência, escuta atenta, ética nas relações. Valorização do antigo sem ignorar o atual. Entendimento de que todos somos um. Entendimento de que não existe alguém inferior ou superior, muito menos se isso se basear em títulos ou cargos acadêmicos.

Queria, neste momento de era do conhecimento, morar na nuvem. Veja que metáfora linda criamos para isso…
Nuvem: aglomerado de gotas diminutas de água ou de cristais de gelo em suspensão no ar, e que dão origem às chuvas. 2. Por extensão de sentido, qualquer acúmulo de pó, fumaça etc. no ar.
Na nuvem, não existe direita, esquerda, existe “aglomerado”.
Ou nos juntamos ou…

Nossos jovens estão assumindo, com as escolas ocupadas, o risco da transformação. Compartilho a indignação do professor José Pacheco: “Onde estão os professores? Por que não ocupam as escolas?”
Eles, os jovens, não estão fechados a discussões, contrariamente a muitos adultos que, por medo, simplesmente ensurdecem. Pode ser que estejam enganados, pode ser que estejam se deixando levar por manipulações políticas ou de políticos. A História vai nos dizer lá na frente. Mas não estão sentados em nenhuma zona de conforto. Não há mais tempo para o não agir, para ver a banda passar. Com estes jovens, podemos alimentar nossa juventude, nossa fé num futuro melhor, reconstruir nossos heróis, retomar aqueles velhos sonhos que nos fizeram escolher esta profissão e não outra.

Por que ainda temos tanta dificuldade de falar? Por que nos custa tanto ouvir? Por que temos medo de ser metamorfose ambulante e mudar as certezas de ontem? Por que ainda tememos aprender com quem é mais jovem?

Ainda não soubemos, como educadores, tirar proveito da ocupação da escola. Acaso não nos queixávamos da evasão escolar? E se agora, o que estava fora quiser entrar, exatamente porque percebe uma mudança de ordem? Não será esta uma chance de fazer juntos, de maneira que o aluno ganhe protagonismo e o professor saia do foco permanentemente vinculado ao fracasso escolar?

Como professores estamos sempre dando respostas a perguntas que sequer foram feitas. Então, deixo como pequena contribuição, aprendida com o mestre José Pacheco e com tantos outros, algumas perguntas que ainda me tenho feito, no exercício desta profissão, que ainda carece de ser reinventada.

“Os cidadãos conscientes já estão agindo. Agora, nos aprofundaremos na educação, no seu vínculo com a política e em sua contribuição para uma via regeneradora que torne possíveis as reformas da sociedade e da vida, e o bom viver. (…)

Para abrir caminhos à metamorfose da humanidade é preciso reinventar a educação, ou o que é o mesmo, avançar pela via que enlaça a cidadania com a transformação da política e com as reformas do pensamento e do ensino.” (MORIN; DELGADO, 2016, pp. 6, 7)

Sugestão de leitura: José Pacheco – Onde estão os professores? Por que não ocupam suas escolas?

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