Minha demissão, minha reinvenção – dia das mulheres – 100 anos de Pão e Paz

“A padronização da vida humana e a perda da sociodiversidade são resultados igualmente notáveis, ainda que destrutivos e indesejáveis”
(Reinventar a Educação. Edgar Morin e Carlos Delgado. Tradução de Irene Reis dos Santos. Ed. Palas Athena. P.39)

“- Quando você tiver filhos, você será muito melhor. Eu melhorei muito quando do primeiro e agora no segundo, você nem imagina como estou muito melhor. Já fui muito como você e precisei de duas maternidades para me transformar numa pessoa melhor. Falo para o seu bem! ”

“- Para o meu bem? Você lá sabe os motivos pelos quais não pari até hoje? Sabe se, sequer, tenho útero? Como minha superior, fale sobre um curso que acha importante que eu faça, sobre uma habilidade que acha necessário que eu adquira, mas não fale sobre uma decisão totalmente pessoal como ter filhos, parir filhos. Não se ache mais importante nem melhor pessoa por ter parido dois filhos. Eu cuido, em muitos abrigos, escolas públicas e ONGs, de muitas crianças cujas mães não foram melhores porque pariram. ”

Este foi o último diálogo que tive com uma chefe, em meu antigo trabalho, antes de mandar tudo às favas e sair correndo… para o hospital. Uma terrível dor de cabeça, estresse profundo, cérebro que parecia não caber na caixa. Caixa? Será que a pessoa que me dizia essas palavras já pensou fora da caixa? Será que já cogitou a possibilidade de que alguém que não pariu poder desenvolver sua maternidade fazendo outras coisas? Será que pensou alguma vez que é absurdo criar um padrão de mulher, uma definição de mulher como aquela que pode e quer parir? Será mesmo que porque alguém ocupa uma posição hierárquica superior têm direito de dizer o que você faz com o seu corpo e, sobretudo, com o seu útero?

Sim, há machismo entre as mulheres e muito! Aos 38 anos de idade optei por não parir e isso faz de mim menos mulher? Quem dá o direito a outras de julgar? Por que não amamentei e não tive criança chorando à noite sou um ser inferior? Sério? Preciso ser julgada por quem pariu? Como queremos que o homem respeite mais as mulheres se entre nós nos julgamos e nos sentenciamos desta forma tão desrespeitosa? Quem foi que disse que machismo vem somente de homem e que homem não pode ser feminista?

Já tive dois casamentos interrompidos pela ansiedade de ter filhos, pela exigência de que eu engravidasse. Sabe quantas mulheres sofrem com este tipo de pressão? Sabem quantas acabam cedendo a ela, engravidam e sofrem?

Neste mês de março em que celebramos o dia das mulheres, convido mulheres do mundo todo a celebrar suas conquistas sociais, seus espaços políticos conquistados, sua independência econômica e suas decisões pessoais acerca de seu corpo e de sua condição de mulher.

Como mulheres, deveríamos presentear também outras mulheres a quem admiramos, como para passar a elas a mensagem de que estamos juntas e de que vamos nos apoiar. O abraço, o apoio sincero, a escuta atenta é o melhor presente, porque há muito comércio envolvido nesta data que de comercial, em sua origem, não tem nada.

Cem anos se passaram do dia 08 de março de 1917, durante a primeira Guerra Mundial, quando mulheres russas se reuniram para reivindicar melhores condições de vida e de trabalho num evento que reuniu 90 mil delas numa manifestação conhecida como “Pão e Paz”. Já houvera movimentos anteriores com os mesmos objetivos. Muitos outros ocorreram a partir deste. Desde 1977 a ONU reconhece esta data e conscientiza sobre as desigualdades de gênero.

Quando ocupamos cargos hierárquicos não podemos nos esquecer destas lutas, destas conquistas, destes direitos que temos de ser o que quisermos. Não devemos impor, falicamente, um poder que ignora e legitima as imposições que estão longe de ser feministas.

Quando falamos sobre o dia das mulheres não estamos falando de homens contra mulheres, de mulheres contra o que quer que seja. Devemos falar de mulheres em favor de vida digna para elas mesmas e para as demais. É verdade que deveríamos falar sobre isso todos os dias, mas isso seria utópico. Então, SIM, precisamos de um dia de alerta, de conscientização, para que nos demais dias possamos estar atentos às práticas construtivas e desejáveis.

O que faz um deputado polonês, em pleno Parlamento Europeu, dizer que mulher ganha menos porque é menos inteligente? Ele simplesmente constata, diante de todas as pessoas presentes, com a autoridade de seus anos de idade e de seu posto, que as mulheres devem ganhar menos porque são mais fracas, menores e menos inteligentes. Coitada da que pariu este ser, lamento por ela! O que faz este deputado ali? Faz com que entendamos que o machismo também está na desenvolvida Europa, nos países subdesenvolvidos, em sua casa, em seu trabalho e tomara que não esteja dentro de você, homem ou mulher!

Muitos são incapazes de entender que se a mulher não está em melhor posição social é porque tais crenças ainda estão arraigadas. Sabe que há mulheres que escutam tanto falar sobre suas supostas limitações e inferioridades que acabam acreditando nisso como verdade?

Ainda bem que não é o caso da espanhola Iratxe García, presente e atuante que não se calou:

“Segundo o senhor e suas teorias, eu não teria o direito de estar aqui, como deputada. E sei que lhe dói e lhe preocupa que hoje, as mulheres possamos estar representando os cidadãos em igualdade de condições com o senhor. Eu aqui venho defender as mulheres europeias de homens como o senhor!”

Tomara somente as mulheres europeias, de países desenvolvidos, precisassem de proteção. O que ocorre com as demais mulheres do mundo, e com as de países em desenvolvimento ou subdesenvolvidos? Vamos refletir, juntos, neste dia 08, sobre estes temas. Nos demais dias, vamos colocar estas reflexões em prática.

Podemos praticar a não violência, responsável pela morte de uma mulher a cada duas horas neste país e tantas outras que morrem aos poucos e não dizem nada a ninguém e nem figuram nas estatísticas.

Podemos praticar a equidade observando se em nosso trabalho ainda há mulheres que ocupam cargos iguais aos dos homens, ganhando menos.

Podemos observar se as mulheres e os homens têm as mesmas chances de ascensão a altos cargos na empresa.

Observemos também, e mais importante, se as mulheres são respeitosas com outras mulheres no ambiente laboral, sobretudo. Convém que as mulheres não estejam unidas, que tenham ciúme umas das outras, que sejam inseguras pela atuação da outra. A quem convém? Não às mulheres.

Visitemos as escolas e os conteúdos ensinados nela. Vamos conferir se ali estamos favorecendo as práticas de igualdade de gênero e de respeito às mulheres. Conheçamos literatura que empodere as mulheres desde pequenas. Menos princesas e mais guerreiras, mulheres reais, que todas podemos ser.

Em casa, com os filhos, estejam atentos se as meninas estão sendo tratadas como os meninos ou se os meninos ainda têm maior liberdade sexual e gozam de maior confiança dos pais que as meninas. Que tipo de orientação se dá aos filhos em casa?

Vigiemos para que todos os integrantes da casa entendam que integram a casa de verdade e, portanto, não oferecem ajuda e sim cumprem com sua parte quando se responsabilizam por alguma atividade doméstica.

Tive coragem de sair de dois casamentos e de me reinventar ao ser demitida deste trabalho opressor. Ainda carrego todas as cicatrizes e jamais as esconderia porque elas fizeram com que eu criasse uma nova pessoa, esta sim muito mais consciente e decidida, que jamais aceita o que lhe é imposto nem permite que seu destino seja decidido por outros, por convenções sociais, por julgamentos. Não teria a pretensão de dizer que sou uma pessoa melhor, mas sei que sou reinventada, e isso é tudo! Feliz 100 anos de Pão e Paz. Paz?

Irene Reis dos Santos

Irene Reis dos Santos

Apaixonada pela educação formal e não formal, oriunda do ensino público, professora desde os 16 anos de idade, formada pela USP. Colabora na publicação de livros de ensino de espanhol para brasileiros. Recentemente traduziu a obra ‘Reinventar a educação’, de Edgar Morin e Carlos Delgado. Estuda neurociência e suas contribuições para a educação, faz mestrado em Ciências da Educação. Professora de yoga, atua em ONG da periferia de São Paulo. É conselheira e representante na América Latina do Consejo Independiente de Protección de la Infancia, onde fomenta e coloca em evidência ações sociais inovadoras em prol da infância.

One Comment

  1. Maria Perpétua
    mar 07, 2017 @ 13:04:18

    Texto excelente, parabéns!!!

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