Educação Reinventada

“Longe de ser um esforço iluminista, a reforma educativa há de se fundir com a reforma do pensamento, da política e do político. Nisso radica sua reinvenção. ”
(Reinventar a Educação. Edgar Morin e Carlos Delgado)

Enquanto a imprensa convencional insiste em dar ênfase às diferentes crises, existe um grande número de pessoas, anônimas muitas delas, que se esforça, diariamente, para plantar sonhos e colher realidades transformadoras. Fomos em busca destas pessoas inspiradoras para o Congresso Internacional e Interuniversitário contra a pobreza infantil no mundo, que ocorreu dias 13 e 14 de outubro na UNIFESP, graças ao apoio da Dra. Denise de Micheli, que abriu as portas para o Consejo Independiente de Protección de la Infancia.

Recuperamos o verdadeiro significado da palavra Congresso – congregar – e congregamos gente de escola pública, privada, ONGs, pais, alunos. Mais de 100 palestrantes, um público de mais de mil pessoas circulando pelos dois dias de congresso, todos cheios de ideias e formando a rede de proteção da infância.

Onde já se viu a criança protagonizando mesa em congresso? Lá! E onde já se viu não acadêmicos sendo ouvidos por acadêmicos consagrados? E onde já se viu acadêmicos consagrados preocupando-se em facilitar seu linguajar para serem entendidos por todos? Criança entrevistando gente famosa como Viviane Mosé? Onde já se viu? Lá! Esta foi a nossa maneira de fazer um mundo reinventado. A criança, neste nosso mundo, é a grande protagonista. E dizer que ela é uma das protagonistas seria uma falácia. Ela é a protagonista e basta! Ela, a criança, decidiu os temas tratados, todos relacionados com o seu mundo: tecnologia e games, inclusão, saúde e primeira infância etc. Decidiu que a linguagem do cinema, da fotografia, da música, do teatro, comunica tão bem quanto as comunicações acadêmicas tradicionais.

Há um mundo fora da tela dos grandes canais de televisão que já foi reinventado. Um mundo em que a educação não é sinônimo de escola porque já se entendeu que se educa também no parque. Isso é o que o engenheiro e administrador de um grande parque do Capão Redondo nos mostrou. Clodoaldo Cajado consegue, em uma reserva de Mata Atlântica na periferia da zona sul de São Paulo, ensinar permacultura, enquanto ensina que o espaço público é de todos e congrega arte, dança, música, literatura, gastronomia, oficineiros culturais, ONGs que atendem coletivos LGBT etc.

Mas a educação também pode ocorrer na escola, desde que faça parte do corpo docente e gestor um grande número de alunos. É o que ocorre na EMEI Nelson Mandela, com sua gestora Cibele Racy que empoderou seus alunos da Educação Infantil e trouxe a família e toda a comunidade para fazer junto.

Também se pode educar misturando os conhecimentos de uma secretaria de saúde com os conhecimentos de uma secretaria de educação, ouvindo o professor, o médico e a criança, colocando todos para trabalhar juntos, em uma cidade vizinha – Santana do Parnaíba, como o faz a Dra. Eliana Vellozo e sua equipe.

O esporte, para a mãe, serve como poderoso antídoto contra a baixa autoestima, além de oferecer um bom modelo de qualidade de vida ao filho. Por meio dele evita-se que as crianças entrem num mundo marginal e isso é o que faz a Gigante Neide Santos. Ela deu de presente a este país o Julio Cesar Agripino, atleta paralímpico que saiu de sua ONG – Vida Corrida – para correr o mundo. E tantos outros meninos que nele se espelham agora, e tantas outras histórias comoventes de amor ao próximo, um amor que vai muito além da maternidade. Estas alternativas oferecidas pelo esporte como solução à pobreza infantil foram também ratificadas pelo medalhista olímpico de vôlei, Tande, em entrevista ao jornalista Leonardo Levatti, em pleno palco da UNIFESP.

Mostrando que a paternidade desperta também o senso de responsabilidade para com o todo e não somente para com o próprio filho, Felipe Silva nos contou como o nascimento de seu filho fez com que ele visse o mundo a partir de nova perspectiva. Além disso, mostrou a importância do terceiro setor no fomento à literatura, com a ação do #Eulivro que distribui livros às comunidades carentes.

E por falar em literatura, Luciana Bento explicou sobre a importância de empoderar a menina negra, duplamente vulnerável, numa sociedade ainda preconceituosa. Não podemos permitir que nossas meninas negras cresçam com medos e a literatura é forte aliada.

Medo também foi o tema desenvolvido na oficina da psicodramatista Silvia Bedran com a atriz Anabel, a partir da contação de história do livro – Rafa e Bia – mostrando a importância do brincar na construção da personalidade da criança e contra qualquer tipo de pobreza infantil.

A pobreza infantil é diversa, infelizmente. Não se trata somente da pobreza material. Há a pobreza afetiva e social. Todo tipo de pobreza pode ser evitado com o despertar da consciência de que todos somos responsáveis pelo nosso futuro e devemos fazer hoje este mundo melhor, em comunidade. Toda criança tem direito à educação, mas por que precisamos colocar todas as crianças fechadas numa escola, com grade, provas, competições para que elas aprendam? A escola, como edifício, não ensina nada. As crianças devem aprender de maneira cooperativa. E esta era a reflexão e provocação que fazia o professor José Pacheco durante o congresso.
Viviane Mosé alertava para a importância do ensino apartidário, necessário, que não pode excluir a discussão política dentro do ambiente escolar. Deixava clara a importância de que todos nos portemos como pessoas que se preocupam com pessoas e refletiu sobre os aspectos que a escola deveria aprender antes de ensinar.

Mara Mourão destacou vários projetos inovadores e inspiradores pelo mundo, inclusive protagonizados por jovens e crianças, verdadeiros transformadores sociais.

Eduardo Lyra falou sobre sua biografia e mostrou como a escola pode ser destruidora de sonhos quando um educador não se preocupa em motivar e sim em julgar e sentenciar. E mostrou ainda a importância da figura materna empoderando os sonhos de um filho. Este filho empoderado agora transforma sua sociedade.

Sabe do que mais? Isso tudo é pouco para descrever o que houve nestes dois dias de congresso. O que queríamos? Que os participantes saíssem gritando bem alto: Eu sou a mudança que quero ver no mundo! Porque delegar e culpar o outro, o governo, o destino, os astros, ainda é mais fácil que arregaçar as mangas, diminuir o ego e se colocar ao lado de outros, costurando uma grande rede em prol de um mundo abundante para todos. Aos poucos, nesta coluna, falaremos mais sobre esta rede que formamos de projetos e pessoas transformadores.

Inauguramos a escuta dos que sempre falam e a voz dos que sempre ouvem!

Tal como no começo, fica a citação da obra inspiradora desta coluna – Reinventar a Educação:

“Somente a cegueira cognoscitiva impede, ainda hoje, de compreender que sem a participação da diversidade dos conhecimentos humanos os grandes problemas não poderão ser resolvidos”.

Irene Reis dos Santos

Irene Reis dos Santos

Apaixonada pela educação formal e não formal, oriunda do ensino público, professora desde os 16 anos de idade, formada pela USP. Colabora na publicação de livros de ensino de espanhol para brasileiros. Recentemente traduziu a obra ‘Reinventar a educação’, de Edgar Morin e Carlos Delgado. Estuda neurociência e suas contribuições para a educação, faz mestrado em Ciências da Educação. Professora de yoga, atua em ONG da periferia de São Paulo. É conselheira e representante na América Latina do Consejo Independiente de Protección de la Infancia, onde fomenta e coloca em evidência ações sociais inovadoras em prol da infância.

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