Aprendentes – inclua esta palavra em seu dicionário!

“O conhecimento incorpora-se, espontaneamente, à vida e faz parte dela em estreita relação com os modos de sentir e de querer, o que constitui um sistema de saber rico e multilateral.” (Reinventar a Educação. Edgar Morin e Carlos Delgado. Tradução de Irene Reis dos Santos. p.19. Ed. Palas Athena)

Nesta minha ânsia por aprender, todo contato humano resulta em fonte de aprendizado. Mas, este processo tem sido, ao longo de minha vida profissional, mais efetivo quando entre adolescentes. Não foi diferente nesta minha visita à Mogi das Cruzes, em um evento em que alunos mostravam a publicação de um livro feito coletivamente, para retratar a cidade e suas personagens, paisagens, origens. Mas esta é uma outra história.

Hoje, quero contar para vocês o que aprendi no contato direto com os adolescentes com quem conversei: Maria Luiza Fernandes, Lucas Silva, Leandro Marcondes, Gustavo Costa. Eu já os conhecia, porque eles fizeram parte do Congresso Internacional e Interuniversitário contra a Pobreza Infantil no mundo, que tive a honra de dirigir, na UNIFESP – São Paulo – em outubro deste ano. Lá, eles protagonizaram a cobertura de imprensa, entrevistando os educadores de maneira muito madura, atenta, com perguntas de uma profundidade imensa.

Somos amigos do mundo virtual – Facebook – e somos colegas de trabalho no Consejo Independiente de Protección de la Infancia. Tenho quase quarenta e eles ainda estão longe dos vinte anos de idade.

No Facebook de Maria Luiza Fernandes, leio uma linda frase e ensinamento de Anísio Teixeira: “Só existirá democracia no Brasil no dia em que se montar no país a máquina que prepara as democracias. Essa máquina é a escola pública.”

Guardem estes nomes! Conheçam outros! Eles são do Grêmio Estudantil de suas escolas, exercitam a Gestão Democrática. Aprendem a ouvir, gerir, formar equipe, identificar e fortalecer lideranças. Aprendem a assumir derrotas. A partir das derrotas, formam novas alianças e aprendem com os colegas. Aprendem a ensinar. Aprendem a aprender e a buscar quem possa ensinar. Promovem aprendizagem entre iguais.

Ser do Grêmio Estudantil significa incorporar o conhecimento à vida, de maneira espontânea, com estreita relação com os modos de sentir e de querer. Significa aprender a ouvir, sobretudo, para saber o que querem e do que querem, sentir e escolher o que é possível. Ser do Grêmio significa construir, em conjunto, esta rede de saber rico e multilateral que os autores propõem em Reinventar a Educação.

Em 2016, criticamos muito o voto, a política, as escolhas e renúncias vistas em política. Como o cidadão aprenderá política sem exercitá-la? É no Grêmio, na tomada de decisão, na escola ocupada por seus protagonistas que poderemos ver tal fenômeno.

Sou fruto da educação pública. A ela devo muito e, por isso, tenho o dever de retribuir e o faço. Fui presidente do Grêmio da Escola Estadual Professor Alberto Conte. Ali lutávamos por tudo. Escolhíamos, no Grêmio, aulas extras, projetos, voluntariado, implantação de rádio no momento do intervalo. Organizávamos campeonatos esportivos com a ideia de fomentar o gosto pela vida saudável. Também organizávamos mostras de teatro, literatura, música, etc.

Dei aulas em escolas privadas por dez anos e, em nenhuma delas, vi nada parecido com um Grêmio de escola pública, sobretudo, de escola Estadual. Na escola privada vi medo. Medo de se dividir o poder. Porque lá, o poder é de quem tem dinheiro, o poder é de quem paga, e quem paga, manda, por cima de qualquer ideologia pedagógica, por cima de qualquer lógica. Há medo. Porque cada aluno representa uma matrícula, uma mensalidade paga. E o medo é paralisante. Se em escola privada, guarde tudo o que sabe sobre Gestão Democrática. Não se vê muito isso por ali. Raras exceções.

Ao conhecer estes meninos, eu me emocionei e revivi minha adolescência. Pude, aos quase quarenta, renovar meus votos e crenças em um mundo melhor. O poder deve estar nas mãos de quem tem a pureza para geri-lo e a energia do ideal, da utopia, que nos impulsiona a um horizonte sempre móvel, como dizia Eduardo Galeano.

A Escola pública, nestas mãos, que são as mãos corretas, está vivendo a Comunidade de aprendizagem, abrindo suas portas a voluntários que querem ter contato com o jovem, fomentando neles a aprendizagem entre iguais com monitorias em período inverso.

Com orgulho, Leandro Marcondes conta que ao mudar de escola começou a se comportar mal porque queria ser expulso. Uma corajosa gestora lhe provocou com uma única frase: “Se você não gosta do que há aqui, por que não muda? ” Este foi o gatilho para que ele realmente assumisse o Grêmio e levasse para esta escola a estrutura que tinha na outra. Funcionou!

Lucas Silva conta que conseguiu, no Grêmio, estrutura de oficias com Xadrez – que ajuda em matemática, no raciocínio matemático. Conseguiu também, na gestão, desenvolver a empatia no diálogo com alunos indisciplinados. Consegue perceber que a rigidez não resolve com a mesma eficácia do diálogo. Aprendem a fazer propaganda eleitoral para eleger a chapa do grêmio. E percebem que as pessoas mais populares da escola, ao formar a chapa, não necessariamente serão eleitas se os adversários tiverem propostas realmente convincentes. A Escola levou o Grêmio tão a sério que os professores também viraram voluntários e abraçaram os projetos do Grêmio para ajudar a preparar para o ENEM, fora de seu horário normal de trabalho. “A gente se orgulha dos voluntários que a gente tem”. “A nossa escola tem muitos talentos”.

Alguém aqui leu a palavra “fracasso”? Não! A quem interessa ignorar a parte boa da escola pública?

Temos de denunciar as mazelas da escola pública e de tudo o que é público, pedir melhores salários aos educadores e gestores, exigir mais investimentos. Porém, precisamos focar no que funciona para que mais gente aposte nesta ideia e se envolva e faça a diferença.

“De cada um a gente aprende um pouco”, esta é a fala do Gustavo Costa. Estes jovens entendem que todo contato humano suscita aprendizagem. Aprendem com o professor, com as pessoas da igreja, com os vizinhos, com os colegas. Aprendem! Ensinam! Aprendem e ensinam em comunidade e em comunhão.

“A escola é para formar cidadãos, para treinar para a cidadania”, diz Maria Luiza Fernandes e me faz sempre pensar em José Pacheco, Paulo Freire e outros mestres inspiradores que também se emocionariam num encontro destes.

“…escolas são pessoas, comunidades feitas de pessoas, que aprendem umas com as outras. E que o desenvolvimento dessas comunidades depende da diversidade de experiências das pessoas que as integram, bem como requer que todos os membros que as constituem se envolvam num esforço de participação, da produção conjunta de conhecimento, vizinho a vizinho, numa fraternidade aprendente. ” (Aprender em Comunidade. José Pacheco. p. 28. Ed. SM)

Este modelo de escola pública, gerida por alunos, há de se multiplicar na escola privada, até o momento em que se perceba o absurdo que é pagar para ter acesso ao conhecimento, sobretudo, numa era do conhecimento!

Já dizia o mestre Agostinho da Silva que cada pessoa que nasce deve ser orientada para não desanimar com o mundo que encontra a sua volta. Pois, estas pessoas, meus senhores, fazem com que nós, adultos, tão bombardeados por más notícias, não desanimemos do mundo a nossa volta pelo simples fato de que este mundo está sendo reinventado por estas mãos jovens. Da mesma maneira como muitos de nós, adultos, aprendemos com estes jovens o manejo da tecnologia, devemos também nos render aos seus ensinamentos sobre ética, honestidade, transparência, empatia, trabalho solidário em comunidade, propósito de vida transcendente. Quer aprender? Ouça! Devemos ouvir estes jovens com a mesma pureza que eles têm ao falar. Sem achar que nossa idade faz de nós seres superiores a eles. Nossa idade, senhores, só nos faz mais velhos. E se esta velhice não significar rigidez, vamos mais longe se estivermos mais juntos.

Estas quatro pessoas que ora tomo como exemplo de uma geração lidam com as incertezas como aliada. Tudo eles questionam, duvidam de si mesmos, são muito mais empíricos. Não precisam, como outrora, de escola nem de professor como fonte única e exclusiva de conhecimento, mas gostam de ter este espaço e estas pessoas, desde que possam trabalhar em conjunto, desde que possam ter protagonismo, reinventar o espaço e as pessoas que o ocupam.

Nos dizeres dos mestres Edgar Morin e Carlos Delgado, há uma subversão material e espiritual da vida cotidiana. “O novo e inovador se adaptou sempre com lentidão e receio, pois resultava suspeito como portador da incerteza e mudança em direção desconhecida.” (p.34). Esta incerteza já não assusta!

Irene Reis dos Santos

Irene Reis dos Santos

Apaixonada pela educação formal e não formal, oriunda do ensino público, professora desde os 16 anos de idade, formada pela USP. Colabora na publicação de livros de ensino de espanhol para brasileiros. Recentemente traduziu a obra ‘Reinventar a educação’, de Edgar Morin e Carlos Delgado. Estuda neurociência e suas contribuições para a educação, faz mestrado em Ciências da Educação. Professora de yoga, atua em ONG da periferia de São Paulo. É conselheira e representante na América Latina do Consejo Independiente de Protección de la Infancia, onde fomenta e coloca em evidência ações sociais inovadoras em prol da infância.

One Comment

  1. Sueli Garcia Carpinelli
    jan 09, 2017 @ 20:30:52

    Perceber a sensibilidade da Profa. Irene ao observar e revelar o potencial dos nossos jovens é algo revitalizador e traz esperança. Trouxe ainda a memória da nossa adormecida mas potente escola pública – agora sedenta por maior atenção. “Quer aprender? Ouça! Devemos ouvir estes jovens com a mesma pureza que eles têm ao falar”. Este pode ser um solavanco na altivez dos que na condição de mestres, doutores ou mesmo e tão somente de adultos colocam-se superiores. Não tenho alunos mas refleti quanto faço isso na condição de avó…: “Sem achar que nossa idade faz de nós seres superiores” perdemos a noção do alcance do saber das nossas crianças, dos nossos jovens: “Nossa idade, senhores, só nos faz mais velhos. E se esta velhice não significar rigidez, vamos mais longe se estivermos mais juntos.” Temos muito a aprender, começando pela forma de estabelecer um diálogo verdadeiro, colocando-os ouvidos e atendidos… e também agentes do seu próprio desenvolvimento. Gratidão Profa. Irene.

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