Mulher no Brasil: uma história de desigualdade e superação

O que; como; onde; por quê; ser mulher em um país em que a desigualdade de gênero está presente no dia a dia.

O que é ser mulher no Brasil hoje?

Ser mulher no Brasil hoje é ser maioria. Atualmente a população feminina é de mais que 105 milhões de pessoas, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e estatística (IBGE).

Ser mulher no Brasil, hoje, também representa um papel que vai contra o estereótipo da dona de casa. A participação da mulher brasileira no mercado de trabalho cresceu. As brasileiras são responsáveis pelo sustento de 37,3% das famílias. Ainda assim, a relação entre gênero e trabalho ainda é desigual.

Segundo dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), em 2014, o número de mulheres com carteiras de trabalho assinadas chegou a 21,4 milhões, 43,25% do total. Só analisando números, a diferença em relação aos homens não parece distante, porém, quando se leva em consideração cargos e salários, percebe-se uma diferença notável.

Para se ter uma ideia, as mulheres representam apenas 13,6% das pessoas em cargos de liderança, de acordo com dados do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e do Instituto Ethos. Além disso, as mulheres tendem a ter salários menores, mesmo quando desempenham as mesmas funções que os homens.

“Já presenciei mulheres que trabalhavam mais e melhor e estavam no mesmo cargo que o homem, porém recebiam menos. Como mulher, isso péssimo, mesmo não sendo eu a atingida; dá uma sensação de impotência”, conta Lilian Esteves, diretora executiva da House Shine Brasil.

Outro dado que revela aspectos dessa desigualdade de gênero é o de que 72% das mulheres dizem que os homens se sentem inferiores quando elas estão em cargos com salários mais elevados do que os deles.

Ainda há a dificuldade de aliar maternidade com carreira. “Conseguir conciliar maternidade com a carreira de trabalho não é fácil. No início, era muito difícil conciliar o meu tempo com o do meu filho. Mas com toda certeza passar esse desafio é gratificante”, relata Lilian.
Como é ser mulher no Brasil?

Ser mulher no Brasil é ter medo. 85% das brasileiras têm medo de sofrer violência sexual, segundo a pesquisa Percepção da População Brasileira sobre Violência Sexual, realizada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública/Datafolha em 2016.

O relatório da Anistia Internacional sobre violação de direitos humanos no Brasil, em 2016, apontou que o país ocupa a 5° posição no ranking mundial de violência contra a mulher. Isso significa 13 feminicídios por dia.

Outro dado que causa espanto é referente à faixa etária das vitimas: 70% das atingidas são crianças ou adolescentes entre 15 e 29 anos.

E ninguém sofre com essa cultura igual à mulher negra. O número de homicídios de mulheres negras aumentou 54% em 10 anos, de acordo com o Mapa da Violência 2015: Homicídio de Mulheres no Brasil.

A violência na maioria das vezes vem de alguém próximo. O relatório da Anistia Internacional aponta que 70% dos estupros são cometidos por parentes, namorados, amigos ou conhecidos. Segundo pesquisa realizada pelo Instituto Avon em parceria com o Data Popular, em 2014, três em cada cinco mulheres jovens já sofreram violência em relacionamentos.

“Todos nós fomos socializados na mesma cultura, por isso o machismo existe nos homens e nas mulheres. Segundo a pesquisa da Avon, o vetor mais promissor para mudança de atitude é a conversa com alguém de confiança. Não funciona chamar o homem de machista”, explica Daniela Grelin, gerente sênior do Instituto Avon.
Onde ser mulher no Brasil?

O Brasil possui uma delegacia com atendimento à mulher a cada 12 municípios. São, ao todo, 499 distritos policiais especializados, distribuídos por 447 cidades pelo país. Um número insatisfatório quando comparado com a proporção de crimes relacionados a gênero. E a distribuição dessas delegacias é outro problema.

O estado com mais delegacias é São Paulo, onde há 120 especializadas distribuídas por 112 municípios, porém o estado também é o mais populoso, com mais de 44 milhões de habitantes. O dobro do segundo colocado, Minas Gerais, com 61 delegacias a serviço de mais de 20 milhões de habitantes.

Em proporção população/delegacia, os dois estados que apresentam o pior quadro são o Ceará, em que existe apenas uma delegacia com atendimento especializado à mulher a cada 1,2 milhão de habitantes, e a Bahia, onde há uma unidade a cada um milhão de pessoas. Juntos, os dois Estados do Nordeste têm 24 milhões de habitantes.
Por que ser mulher no Brasil?

Ser mulher no Brasil com certeza não é fácil. Todas as estatísticas apontam um caminho árduo. Por isso, ninguém melhor para responder essa pergunta que as próprias mulheres.

“É ótimo ser brasileira, é ótimo ser mulher! É claro que não é fácil, os dados mostram isso, mas ver como a brasileira é batalhadora é gratificante”, declara Rosana Schwartz.

Uma mudança no cenário passa diretamente pelo entendimento da mulher sobre as desigualdades de gênero.

Claudia Patrícia e Luna, presidente da Elas por Elas: vozes e ações das mulheres, entende que ser brasileira também está na luta. “É bom ser mulher no Brasil, mas, principalmente, é necessário. Sou mulher e negra e sei o quanto esse gênero sofre, e que nem todas as mulheres têm consciência da desigualdade existente entre os gêneros. Por isso, faço questão de me afirmar brasileira e batalhar nessa luta de conscientização”.

Como não poderia faltar, as mulheres do Observatório do Terceiro Setor responderam o porquê de ser mulher no Brasil.

“Para fazer parte de uma mudança social, uma mudança de cultura”, responde a repórter Nathalia Di Oliveira.

Já a repórter Maria Fernanda Scala é enfática na resposta. “Ser mulher no Brasil é ter esperança, acreditar e lutar para que o cenário mude”.

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