Empresas afro-brasileiras já movimentam R$ 12 bilhões por ano

Incentivo ao empreendedorismo de afrodescendentes tem crescido no país

Foto por: Ricardo Carvalho (Bagão da Adega)

 

Os negros vêm lutando pelo seu espaço na sociedade há muitos anos. O preconceito e o racismo ainda estão infiltrados no dia a dia em diversos ambientes, como escolas e mercado de trabalho.

Apesar de representarem quase 54% da população brasileira, segundo o IBGE, os negros ainda ocupam poucos cargos altos nas empresas e têm mais dificuldade em conseguir emprego. Mesmo com o crescimento da renda dessa parte da população, a diferença entre negros e brancos ainda é gritante.

Desemprego e desigualdade

O último cálculo do IBGE com relação ao desemprego mostrou que mais de 14 milhões de pessoas estão desempregadas no país, sendo que essa taxa atinge mais de 14% da população negra e apenas 9% da população branca, segundo a Pnad Contínua.

Além da maior dificuldade em ingressar no mercado de trabalho, os negros recebem salário inferior quando conseguem um emprego. A diferença chega a quase metade do que os brancos ganham em sua renda média real.

“O preconceito persiste porque nosso país é racista, o apartheid social velado no Brasil estende seus efeitos aos negócios liderados por negros, a igualdade de oportunidades ainda está longe de ser alcançada”, diz Ruth Pinheiro, presidente da Rede Brasil Afro-Empreendedor (REAFRO).

Considerando a dificuldade de encontrar um trabalho fixo, a população tem buscado novas alternativas para conseguir se sustentar. Com isso, mais micro-empreendedores estão surgindo, e, com eles, a maior valorização da cultura afro.

Presença Afro

O Programa de Apoio a Empreendedores Afro-brasileiros, da Inova Capital, mostra que existem 11 milhões de empreendedores negros no Brasil. Na última década, a escolaridade dessa parte da população aumentou 41% e o rendimento mensal cresceu 70%. Os afrodescendentes representam 52% dos empreendedores no país, mas apenas 29% são empregadores.

O maior obstáculo dos negros para dar início a um projeto empreendedor é justamente o preconceito histórico contra sua cor e sua cultura. O que poucas pessoas pensam é que pela maioria dos negros fazer parte da população que vive nas periferias, eles são justamente aqueles que melhor entendem os problemas sociais da região em que vivem, sugerindo soluções de forma mais eficaz.

“A realidade da discriminação racial historicamente afetou a capacidade de acesso da população negra ao mercado de trabalho formal. Assim, o empreendedorismo muitas vezes representou a via por excelência para a garantia das condições básicas de sobrevivência para vastos setores da população afro-brasileira”, explica Marcelo Paixão, professor associado na Universidade do Texas.

“Infelizmente a sociedade brasileira se acostumou a ter pessoas de peles escuras exercendo atividades sociais subalternas e mal remuneradas. Pessoas negras exercendo funções de comando muitas vezes são recebidas de forma pouco amistosa no mundo social brasileiro”, conclui.

Incentivo

Incentivar a população afrodescendente a abrir seu próprio negócio é essencial para o desenvolvimento social e econômico do Brasil. Atualmente existem diversos projetos sociais e organizações do Terceiro Setor que buscam ajudar essas pessoas, mostrando uma nova visão e oportunidades.

Entre essas organizações estão a Rede Brasil Afro-Empreendedor (REAFRO), e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), responsável pelo programa de Apoio a Empreendedores Afro-brasileiros, a Inova Capital. O objetivo central dessas duas instituições é dar espaço às pessoas negras com ideias inovadoras capazes de melhorar a sociedade.

A assistência oferecida por essas organizações comporta desde ajuda financeira até orientação de novas técnicas de gestão. Os negócios variam desde salão de cabeleireiro especializado em cabelos afros até empresas alimentícias ou de tecnologia. O setor varia de acordo com o perfil do empreendedor, principalmente na questão de gênero (homem ou mulher).

Marcelo Paixão também cita a importância da ampliação da gestão desses empreendimentos: “O empreendedorismo afro-brasileiro se manifesta de diferentes formas, algumas com maior conteúdo tecnológico ou capacidade gerencial e outras gerenciadas de forma mais espontânea ou artesanal. De fato, há um amplo terreno vinculado à cultura negra que vem sendo explorado por expressivos contingentes desta população, tal como é o célebre exemplo das baianas do acarajé ou dos cabeleireiros de estilo afro. Por isso é necessária a ampliação da capacidade gerencial e financeira destes setores.”

Segundo Ruth Pinheiro, o crescimento do empreendedorismo afro se deve a várias razões, entre elas aos inúmeros negócios que são baseados na cultura negra, hábitos, preferências e necessidades. “A participação desses empreendimentos em todos os setores da produção se reflete na movimentação de cerca de 12 bilhões de reais ao ano, produzidos por micro, pequenas e médias empresas afro-brasileiras que necessitam de fomento e investimentos para se tornarem cada vez maiores e colaborarem ainda mais para o desenvolvimento e melhoria da economia brasileira”, afirmou. “Os negros foram e são a base de trabalho para a geração de riquezas no Brasil e hoje têm vasta contribuição na economia nacional”.

Evento

Para debater esse tema e mostrar o impacto social desse tipo de empreendedorismo, o BID realizará um evento internacional no dia 17 de maio. O Ecossistema para a Promoção do Crescimento de Negócios de Alto Impacto Social | Conexão Estados Unidos – Brasil reunirá lideranças dos Estados Unidos e do Brasil para um diálogo sobre as iniciativas bem-sucedidas, aprendizados, desafios e oportunidades de ações para a valorização e o crescimento de negócios de alto impacto social.

O evento acontecerá das 08h30 às 13h, no Itaú BBA, Torre I, Auditório, localizado na Av. Brig. Faria Lima, 3500, em São Paulo. As inscrições devem ser feitas no site.

 

 

 

 

 

 

Comente