Como mobilizar pessoas e recursos pelas causas sociais

Assunto esteve no centro de diversos debates durante Festival ABCR 2016

Nick Allen, da Nuevo Fundraising (EUA), falou sobre a importância de as organizações focarem suas estratégias no celular - Foto: Josilene Rocha

Nick Allen, da Nuevo Fundraising (EUA), falou sobre a importância de as organizações focarem suas estratégias no celular – Foto: Josilene Rocha

Muitas organizações sem fins lucrativos desempenham excelentes trabalhos para ajudar no desenvolvimento das sociedades em que estão inseridas, mas mesmo elas costumam ter dificuldades para conquistar doadores individuais. Com isso, algumas ficam reféns de grandes patrocinadores – como empresas e governos – ou simplesmente acabam fechando as portas por não terem condições financeiras para permanecerem de pé. Mas por que isso acontece se os trabalhos delas são relevantes? Por que as pessoas das comunidades que elas ajudam não colaboram para que as ONGs sobrevivam e continuem promovendo o desenvolvimento local?

Estas são questões difíceis de responder, mas algumas organizações encontraram maneiras de conquistar um grande número de pessoas e compartilharam suas experiências durante o Festival ABCR 2016. O evento é o maior do país sobre captação de recursos no Terceiro Setor e ocorreu esta semana, entre os dias 4 e 6, em São Paulo.

Uma dessas entidades foi a Change.org, a principal plataforma do mundo para petições online. Ela funciona assim: qualquer pessoa pode criar um abaixo-assinado gratuitamente, esse abaixo-assinado é compartilhado pela pessoa e depois pelos amigos dela, aí vai se espalhando pela rede e, dependendo do conteúdo dele, pode se tornar um viral, compartilhado por milhares e milhares de pessoas. Quando a petição alcança um certo número de assinaturas, ela é enviada para as autoridades responsáveis pela solução daquele problema e, muitas vezes, a comoção popular faz com que as autoridades se vejam obrigadas a agir. Trata-se de uma forma simples de protestar e de engajar pessoas que até então nunca tinham participado de causas sociais.

Anna Robinson, da Change.org, começou sua palestra contando a história de Laxmi, uma jovem indiana que teve o rosto queimado com ácido e que fez uma grande campanha pedindo restrições na venda de ácido. Como resultado, governo indiano aprovou uma lei reforçando o controle da venda do produto - Foto: Josilene Rocha

Anna Robinson, da Change.org, começou sua palestra contando a história de Laxmi, uma jovem indiana que teve o rosto queimado com ácido e que fez uma grande campanha pedindo restrições na venda de ácido. Como resultado, governo indiano aprovou uma lei reforçando o controle da venda do produto – Foto: Josilene Rocha

“Através de campanhas simples e virais, as pessoas conseguem mudar a realidade todos os dias”, destacou Anna Robinson, Diretora Sênior de Desenvolvimento de Negócios na Change.org. Hoje, mais de 100 milhões de pessoas em 196 países participam da plataforma.

Anna também deu dicas de como atrair pessoas, independentemente do tipo de trabalho que a sua ONG faça: esteja presente no ambiente online, converse com seus apoiadores para que eles possam participar ativamente do seu trabalho e invista na captação de recursos online. “Um erro que muita gente comete é o de achar que não é preciso investir para conseguir doações”, alerta.

Diversificação de recursos da Casa de David

Outra organização que compartilhou suas experiências bem-sucedidas foi a Casa de David, que atende pessoas com deficiência física e intelectual e com autismo.

Até poucos anos atrás, praticamente toda a verba da organização vinha do Governo do Estado de São Paulo. Então, em 2010, a entidade montou um departamento de comunicação e captação.

Cleize Hernandez Bellotto, da Casa de David, é a responsável pelo departamento de comunicação e captação da ONG - Foto: Josilene Rocha

Cleize Hernandez Bellotto, da Casa de David, é a responsável pelo departamento de comunicação e captação da ONG – Foto: Josilene Rocha

Com apenas duas pessoas na equipe inicialmente, o departamento trabalhou na criação de uma nova identidade visual para a organização, na busca de apoio de mídia e começou a estruturar a captação de cupons da Nota Fiscal Paulista.

Além disso, a entidade foi atrás de deputados estaduais e federais, para arrecadar emendas parlamentares – um tipo de verba que muitas ONGs nem sabem que existe e que pouquíssimas conseguem obter.

A organização passou, ainda, a promover sistematicamente eventos, como jantares, e a fazer parcerias com os promotores de grandes feiras, como a Brasil Game Show (BGS), que oferece a meia-entrada social (ingresso sai pela metade se a pessoa doar um quilo de alimento não perecível na entrada do evento).

O resultado de todas essas ações é que hoje a entidade arrecada cerca de 40% de sua receita anual de forma independente. Mas a responsável pelo departamento de comunicação, Cleize Hernandes Bellotto, avisa: um processo de reestruturação assim dá trabalho e requer paciência. “É um trabalho de formiguinha. Nós, por exemplo, criamos o departamento em 2010 e tivemos os primeiros resultados financeiros só em 2012”, contou.

Celulares como base estratégica

Em casa, nas ruas, no transporte público… Em qualquer lugar, basta olhar para o lado para ver alguém com o celular na mão. Esta é uma realidade não só no Brasil, mas ao redor de todo o mundo, e que tem mudado uma série de hábitos, inclusive o de doar. Quem falou sobre isso durante o festival foi Nick Allen, diretor da agência Nuevo Fundraising, em São Francisco (EUA).

Uma das mesas internacionais do evento contou com as presenças de Nick Allenn (Nuevo Fundraising), Anna Robinson (Change.org) e Darian Heyman (escritor internacional) - sentados - e teve como moderador Ader Assis (Ader & Lang) - Foto: Josilene Rocha

Uma das mesas internacionais do evento contou com as presenças de Nick Allenn (Nuevo Fundraising), Anna Robinson (Change.org) e Darian Heyman (escritor internacional) – sentados – e teve como moderador Ader Assis (Ader & Lang) – Foto: Josilene Rocha

Como as pessoas ficam o tempo quase todo com o celular na mão, a melhor forma de alcançá-las é produzir coisas interessantes que elas queiram ver em seus smartphones. Os sites precisam ser leves e ficar bonitos na tela do mobile, aplicativos podem envolver seu público e facilitar as doações, e um e-mail sucinto com letras grandes e um botão “Doe aqui” pode fazer quase milagres pela sua entidade. Acredite: pelo menos nos Estados Unidos e na Inglaterra, a forma mais eficiente de conquistar doações é pedir por e-mail. E a maior parte dessas mensagens é lida em um smartphone.

Conte sua história em menos de um minuto

Outro a dar dicas para mobilizar pessoas e recursos foi o escritor internacional Darian Rodriguez Heyman. De acordo com ele, como vivemos em uma sociedade com excesso de informação, precisamos aprender a cativar os ouvintes e isso se faz contando boas histórias, de preferência de forma rápida.

Um exercício que ele ensinou foi o de aprendermos a resumir em forma de narrativa o trabalho da nossa organização em até um minuto, para que possamos falar dele para muitas pessoas, em vários contextos: de uma conversa de elevador a um jantar de negócios.

Para este resumo, ele sugere quatro itens (nesta ordem): fale qual o problema que vocês querem resolver, qual seria a solução, qual o plano de ação da sua entidade e como o ouvinte pode ajudar.

Se após o resumo o ouvinte fizer alguma pergunta, significa que você conseguiu atrair a atenção dele e aí sim você entrará em mais detalhes.

O evento ocorreu no Centro de Convenções Rebouças, em São Paulo, e além das palestras teve uma feira de expositores - Foto: Josilene Rocha

O evento ocorreu no Centro de Convenções Rebouças, em São Paulo, e além das palestras teve uma feira de expositores – Foto: Josilene Rocha

O Festival ABCR

Este ano, o evento teve sua oitava edição e reuniu cerca de 500 pessoas, sendo que a maioria delas já trabalha com a captação de recursos em organizações sem fins lucrativos. A ideia do festival, aliás, é justamente promover a troca de experiências entre profissionais da área, atuantes no Brasil e no exterior.

“Como setor de captação de recursos, a gente precisa se encontrar, a gente precisa trocar e discutir pontos que são comuns a todo o setor. E o Festival ABCR nos proporciona esse momento de encontro. São três dias entre iguais, todo mundo com o mesmo dilema, com o mesmo sonho: buscar recursos para viabilizar os projetos sociais que estão transformando o país”, explicou em entrevista o diretor-executivo da ABCR, João Paulo Vergueiro.

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